Friday, November 1, 2024

24 - Suspiro de desespero

 

Vigésimo quarto conto:  Suspiro de desespero

 

       Onde estão? Onde estão? Estou desesperado, pois tenho dúvidas infindáveis, que me causam amarguras, dissabores, infelicidade e desventuras. Oh! Quão enganosos são meus passos, quão perdido estou. Quê será de min? Por este caminho vamos, o caminho das possibilidades, nada é certo, a segurança é apenas uma sensação criada pela mente humana. Haverá um dia, uma vontade que tenha um fundamento verdadeiramente sólido? Uma pretensão totalmente justificável? Terá o ser humano este privilégio? O privilégio da sabedoria...

      Onde estão? Onde estão? Onde estão as verdades de minha vida? Onde estão os motivos nos quais me agarrei com mãos que de tanta força que fizeram entraram em espasmos violentos, minhas unhas encravadas naquele solo que antes julgava fértil, de tão encravadas tão profundamente naquela terra  em que acreditava haverem sementes das mais diversas criaram fissuras das quais muito sangue escorreu, manchando minha vontade de um enfraquecimento descabido.

       Não posso me conter, a verdade que busco é muito maior que aquela que consigo encontrar. Por isto os tormentos da alma são muitos, por isto me desespero. Pudesse eu encontrar aquela verdade, que encontrando-a no momento de minha morte, num leito obscuro e distante de tudo muito me alegraria, sim, em ir-me já tendo encontrado a verdade, de terminar o que foi começado, não obstante é tão audaz minha imaginação que se antecipa à realidade, à verdade. Assim que jamais comecei eu alguma coisa sequer, pois tudo o que começo é infundado, por isto não o é. Qual é então? Qual é a única verdade que nos faz viver senão a própria vontade? Nada existe de palpável na natureza do mundo senão a vontade humana, o resto são ilusões criadas por mentes ávidas de uma vida, que na verdade sempre foi infundamentada, sempre foi lúdica. O mundo é lúdico! Tudo senão a vontade, esta coisa que vêm antes de tudo, este princípio, é vã ilusão é criação da imaginação.

      Onde está? Onde está? Onde está a verdade  à qual devo correr como uma criança à mãe? Onde se incrusta a verdade da minha vida? Onde se localiza esta suposição que ainda não existirá enquanto minha vontade não fazer andar o trem da imaginação? Onde? Podereis vós responder?

23 - O amor de todos os tempos!

 

Vigésimo terceiro conto: O amor de todos os tempos!

 

      Os clamores das cornetas celestiais anunciavam: era o momento da chegada, sim a paz derradeira por fim estaria presente. Os espíritos dos reis de todas as dinastias e períodos do mundo se levantaram de seus túmulos para receber dos céus a luz divina. Um mistério impenetrável havia ainda: de tantos reis, qual seria aquele que ficaria com a coroa doada pelas mais requintadas potestades?

      Assim certo temor anuviou os pensamentos dos que ainda estavam vivos, e dos reis que levantavam-se de suas tumbas, bastante melancolia soava no ar, como longínqua música, todos deixavam-se invadir por esta sensação que a pesar de guardar grandes segredos em si proporcionava certo descanso ao coração.

      Foram em cavernas das profundidades mais longínquas da terra que notaram-se mudanças, pois lá, onde somente prevalecia obscuridade e medo surgiu uma luz bastante forte, consoladora e terna a luz inundou muitas câmaras dos abismos terrestre, deixando mostrar seres mágicos e mitológicos que até então eram vivos apenas na imaginação humana.

       No mundo dos homens houveram muitas festas, mas nenhuma se igualou em esplendor à esta que agora se fazia presente, pois a luz foi tão intensa e bela que os muitos que se deixaram extasiar decidiram muito festejar. Era uma dádiva, talvez os tempos finais, pois  um amor fraterno permeou todos os corações dos homens. Uma festa séria, a festa que os céus tanto haviam esperado para trazer aos homens.

      Após muito festejarem, os homens pararam a escutar que viria depois. Um silêncio como jamais havia-se sentido antes vigorou por tempo indeterminado, até que finalmente as refulgências celestes baixassem à morada terrena, ali nas nuvens começaram-se a ver formas distintas, com muita claridade, anjos de diversos tamanhos e tipos de asas descendo, os mitos e deuses das profundezas da terra saíram de suas tocas, a buscar a redenção.

     Foi então que o silêncio permeava-se de ruídos misteriosos, poderiam ser almas ainda não redimidas, ou ruídos trazidos de tempos remotos, avivados por lembranças tormentosas. Isto porém não durou muito, pois dos céus e do centro da terra vieram as palavras finais: -  Todos serão libertos de seus receios, sua amarguras e tormentos serão apenas passado, o presente será de Bem Aventuraça, venham reis e plebeus à min, venham mitos e deuses à min, venham anjos e potestades à min. Chegou a hora: seremos todos um só, assim como no início será o final, e será o novo inicio, como assim se passa na infinidade do tempo.

-             Não, eu não quero ir! – Disse uma alma arredia, relutantemente enquanto batia com os pés no chão enraivecida com seu destino

-             Como não quer ir? Quêm ousas me contrariar? – Disse impetuosamente Deus, com uma voz incisiva, que não podia ao certo perceber de onde provinha: se da própria consciência ou local externo, a pergunta fora tão arrebatadora que aquela alma estando antes resoluta e firme em seu intuito balbuciou alguma coisa ininteligível e logo disse cautelosamente.

-             Não... Sabe o que é? É que... que eu achei que o final dos tempos seria diferente. – Falou aquela alma, tentando ser um pouco mais simpática, não pretendendo sinceramente criar quaisquer atritos ou aborrecimentos eventuais à Deus.

-             Diferente? Como assim? – Perguntou a voz trovejante, bastante curiosa pela audácia daquele ser ínfimo e petulante.

-             Ha! Sabe como é que é, né Deus, a gente vive, vive e no final tudo tem que acabar e começar de novo, interminavelmente? Isto é absolutamente patético! Err... Quer dizer, creio que seja um tanto estranho ou inesperado.

-             Você é uma alma um tanto inoportuna, pos parece haver contrariado todas as regras que até então estabelecí, vejas tú como todos vêm à min como criancinhas boazinhas, at

-             é aqueles que não prestaram muito vem aqui comigo ter, mas você. Quê raios de loucura te assola?

-             Nenhuma, é que parei, refleti e concluí que não vale a pena começar tudo de novo, com todo o respeito, o senhor deveria fazer estas leis um pouco diferentes, algo um pouco mais “light” sabe?

-             “Light”? Quê quer dizer isto?

-             Sutil, suave, ameno, delicado, sensível ou aprazivo. Algo em que pudéssemos nós mortais nos embaldar duma alegria soberba.

-             Não! Não! Isto não, pois a soberba é extremamente pecaminosa, gostei deste negócio de “light”mesmo a pesar de não ter sido uma criação prorpiamente minha, seria uma criação da criação. No entanto erra muito quando diz querer ser um soberbo, como queres tu isto, ser repelente, se tampouco isto possuem os reis de teu mundo?

-             Me precipitei, eu quis dizer elegante.

-             Aqui está sua elegância – Ouviu-se um som de estalir de dedos e subitamente aquela alma, que já trajava alguns farrapos carcomidos por vermes que por centenares de anos perpassaram aquele corpo em trajetos dos mais variados, fazendo retalhos dos mais variados, aquela alma subitamente viu-se num belíssimo “smoking” como nos tempos da juventude.

-             Aí está tua elegância, mas agora venha que já é hora, depois do final tenha muito trabalho a fazer, pois como vê novamente irei iniciar o mundo.

-             E nós?

-             Nós quem? Filho arredio...

-             Nós eu.

-             Nós eu? Não há nexo nestas tuas palavras, venha logo e acabarei de uma vez por todas com isso.

-             Não vês, tu que és o Deus, que são as súplicas  que saem como sangue de min?

-             Bem, já que tu tanto insiste, e como minha imparcialidade hoje não está lá muito convicta de si, aliás não sou mais o de antigamente, é: na época de Moises sempre fui bastante imperioso, a humanidade tanto me transformou que tratei de mudar minha postura, hoje meus braças estão abertos até se for o caso para trocar uma lei ou outra. Não dizem por aí que o meio faz o homem? Pois veja você, que o meio foi tão influente que até à Deus fez. Não vou no entanto falar muito à você de detalhes supérfluos, pois sou Deus, e tenho de uma maneira ou outra de demonstrar certa imponência, ao menos para deixar uma boa impressão, sabe?

-             Claro, claro, senhor Deus: tu és o pai e a mãe do universo, sem ti o nada ainda seria nada, e sem ti nem tu serias algo pois é evidente que criaste a ti mesmo.

-             Muito te enganas tu mortal, em verdade, em verdade vos digo: Foi o nada que me criou, e não eu que criei a min mesmo.

-             Mas que diferença isto faz?

-             Muita! O nada têm o poder inicial, a alavanca de partida do universo, é por isto que quando tudo chega ao seu devido final tenho de reduzir a nada novamente, para que seja criado uma vez mais.

-             Que coisa estranha, parece não fazer muito sentido...

-             Há coisas que não têm mesmo sentido, meu filho – Disse Deus ternamente – E temos de nos contentar com isto, vejas tu, que até eu, sendo o Deus único e poderoso do universo, tendo tudo o que quero aos meus pés, não interpretes ao pé da letra, quero dizer pés metaforicamente, pois além de tudo sou abstrato e imaterial, logo condui-se que não tenho pés. Pois então: mesmo eu, ainda não descobri ao certo o sentido da vida.

-             Ai meu Deus! – Falou o espírito rebelde, aterrado pelo que ouvia de Deus, seria o mesmo Deus que ele tanto imaginara enquanto vivo? Logo pôs-se a pensar o quão ignorante era aquele Deus, entretanto como Deus tudo sabe, e dele não se podem ocultar segredos senão aqueles que não se sabe, Deus leu os impropérios que à ele eram dirigidos em pensamento como se estivessem sendo recitados em som alto e claro.

-             Quê dizes de min? Burro e pateta? Mas quê espécie de palerma eres tu ó criatura ínfima e pequena?

-             Não penses isto de min ó querido e amável Deus... – Desconversou o espírito, que argutamente apercebera-se da ocorrência inesperada. – Eu estava justamente pensando sobre um outro Deus...

-             Se é assim, não há quaisquer motivos para reencarnar-te como uma lesma ou lama.

-             Dalai Lama?

-             Não, lama de terra molhada.

-             Que desagradável, eu ficaria logo resfriado!

-             Sim, possivelmente! – Falou Deus convicto de sua vitória, quando na verdade estava sendo ludibriado, pois o outro inventara o suposto “outro Deus” quando apercebera-se de sua crítica situação diante do Criador.

-             Bem já se faz tarde, eu devo ir indo...

-             Indo não! Vindo! Veja ao seu redor.

-             Não há nada ao meu redor, só um branco infinito, uma luz monótona e linear que se faz presente em todos os lugares. Quê luz é esta?

-             Sou eu!

-             Estou em você.

-             Ora estas, é claro que sim! Não somente estás em min como és parte de min, pois eu sou minha própria criação.

-             Quê acontecerá agora? Tenho certo receio de perder à min mesmo...

-             Não te apavores, irá ocorrer tudo o que já ocorreu até agora: da vida se fará mais vida, da luz se fará mais luz, do homem se farão mais homens, e do amor se farão todos os tempos.

22 - O sonho de todo artista

 

Vigésimo segundo: O sonho de todo artista.

 

      As cores se mesclaram numa bela e fulgurosa imagem, como sinos que soassem com duas notas elas se misturaram formando um todo harmonioso. O pintor certamente era um doido varrido, sim: uns olhos arregaçados, babando por vezes sem saber, cérebro fervilhando, sempre ocupado com mil e uma imaginações, indagassões que o perseguiam e assaltavam, assim de súbito sem pedir licença. Era como se vozes diversas, todas de maneira desorganizada e precipitada falassem-lhe ao cérebro. Um louco do mundo, que colocava nas cores aquelo que há muito já era a mais viva verdade de sua alma, extraía dos sentimentos mais escondidos, dos detalhes mais profundos a essência, e ali pincelava, numa tela, que antes em branco agora de beleza indescritível. Sua mente borbulhava em reflexões diversas, as dúvidas existenciais acalentavam um lugar específico: seu coração, as muitas vozes falavam em devaneios diversos, com nexo e desenvolvimento dialético, quebrando estas regras em algumas ocasiões. Tudo o que era sentido e pensado era pintado:

Qual é a tua verdade?

Não tenho verdade, sigo andando...

Mas quem raio eres? Queres perder-te no abismo da vida? Estás insano?

Absolutamente não, ninguém pode dizer uma bobagem assim.

Assim como o que?

Que alguém têm uma verdade

Infâmia, somente isto, estás fora da normalidade...

Infâmia é perguntar à alguém qual é seu caminho, pois assim supõem-se um caminho existente, quando na verdade todos os caminhos são em potencial flores, que se abrem conforme o que se quer. Pus uma prerrogativa, pois para caminhar há de querer, a vontade é no ser humano o que lhe dá o acontecimento, que no fundo não passa de uma interpretação, uma interpretação ora escassa ora vivaz, à isto se resume a vida, pois se tudo podemos fazer, dependendo somente de escolhas e vontade é certo dizer que somos tudo em potencial, se posso ser tudo é o mesmo que não ser algo somente por não ter feito aquela escolha. Assim está posto o teatro da vida.

Não digas asneiras! Até parece que alguém poderia entender teus pensamentos.

Estes pensamentos não são meus!

Não? – Este não foi proferido em têm absurdamente irônico, de modo que surtiu certo enfado por parte do pintor. – Quer dizer que não és tú o difusor de tais atrocidades intelectuais? Então que raios de ser poderia, se enredar em terrenos tão obtuzos, confusos senão até fétidos?

Não exageres, pois tuas palavras me chegam em tom ofensivo, explicar-me-ei adequadamente, para que não restem dúvidas: Minhas palavras são fruto de idéias intuitivas, por isto não são exatamente minhas.

Está certo, queres então dizer que a intuição é um evento que se localiza fora e não dentro das pessoas, e assim não pertencem à elas propriamente ditas?

Bastante perspicaz da sua parte.

Como ousas fazer “picuinhas”de minha pessoa?

Não eres sequer pessoa, e sim pensamento como eu.

Bem, é verdade, talvez tenha eu me precipitado um pouco, mas o fato é que fizeste mal caso de minhas idéias, crendo-me um asno ou sonso... E isto não agrada a ninguém.

Claro, claro, minhas desculpas.

Isto só não basta para alegrar-me.

Mas que então fartará a tua felicidade, se sempre estás à contrariar minhas idéias?

Nada, nunca estarei satisfeito, aliás, sou como um saco sem fundos, quanto mais coisas me dizes menos colocarei fé naquilo que é dito.

Isto é, absolutamente, um verdadeiro opróbio! Ou... Quem será o insano?

Não venhas tú novamente com teus desaforos, o fato é perfeitamente explicável: vejas tu que acaso temos: no pensamento haverão lutas perpétuas na busca de um consenso absoluto de realidade, consenso este que jamais será atingido, pois o sujeito que busca entender a realidade está em constante transformação. Assim, passa-se que o pensamento dialético digladia-se infinitamente na busca da verdade.

E onde está esta verdade?

Qual verdade?

Ora, a verdade do mundo.

Não está nos teus bolsos?

Deixa eu ver. – Breve instante de silencia mental -  Não, não está.

E no outro?

Deixa eu ver. – Outra pausa no pensamento – Também não.

Condúi-se daí que não está com você, se não tens a verdade ela está fora de tí

No mundo?

Bem, se você imaginar que a verdade do mundo, como diz o nome é pertencente ao mundo é esta a resposta, mas julgo que sejas um tanto tola esta sua colocação, pois não busca a verdade do mundo senão a verdade da realidade.

Humm?

Falo com uma criança de quantos meses? – Muitas risadas e gargalhadas, pois o pensamento não pode se conter – A realidade é algo mais abrangente que o mundo, e que o próprio universo, pois constitui a divagação de sensos perceptivos diferenciados do que é conhecido.

Neste âmbito posso concordar, e proponho um desafio. – Disse, mesmo sem entender, mas fazendo-se de esperto, justamente para não deixar muito tempo para descobrir-se sua total ignorância no que fora dito

Alegro-me finalmente, um desafio me parece algo instigante.

Disse antes nunca alegrar-se ou algo similar...

Err... Força de expressão, na verdade nem me alegrei muito, fiquei digamos: um pouco extasiado

Compreensível.

E o desafio?

Que desafio?

Ora bolas... Aquele que acabaste de dizer que irias propor.

A sim, quase me havia esquecido: Um grande coelho de bronze, sim, tão grande deixando grandes edifícios pequenos, uma bela escultura, na qual estão muitas corujas soturnas prostradas, numa noite gélida e escura, notam-se apenas os centenares olhos de cá para lá, vigiando todos os cantos de uma praça. Decifra?

Me parece um tanto banal esta sua colocação, certamente julgaste algo me entreter com tuas histórias estapafúrdias?

Não estou aqui para entreter, senão para desafiar.

Sei disto, fiz esta jogada a ver se percebias meu blefe.

Não pasmes diante da dificuldade, apenas digas tua interpretação.

Há! Então era para interpretas?

Supostamente.

Nas cidades de hoje me parece faltar um punhado de arte, por isto está o coelho gigante, que simboliza um animal bastante gracioso, o que traz certa infantilidade na conotação geral de teu enigma. assim deve ser a vida: tendo arte e alegria.

E as corujas? Acaso olvidaste?

Não, por suposto que não amigo meu.

Acaso temos nós toda esta intimidade?

Não somos pensamentos do mesmo cérebro?

Somos, somos sim, mas isto não quer dizer que estejamos assim tão afeitos, por favor, eu lhe peço gentilmente: mantenhas certa distância, para que apenas confabulemos aprazivamente.

A última coisa que pudera eu pensar é criar atrito, atrito jamais, mas sim contravenções e contraposições, se assim não fosse estaria morto o próprio ato de pensar.

Bem, que assim seja, responda agora o resto do enigma. – Falou, ou pensou? O pensamento com impetuosidade.

Bem, as corujas, s corujas... São... Sim: As corujas são seres noturnos, e representam a magia e beleza noturna, compondo com a estátua e a noite uma imagem tétrica e pitoresca, inesquecível, veja que este é um animal majestosamente trajado, não deixando de concorrer com os gatos mais belos que possam existir, seus olhos estão acesos porque olha à noite.

Algo mais?

Não. Isto só já não basta?

Claro, tenhamos bom senso, tuas ponderações atingiram interessante patamar de discussão, ainda que não tenhas divagado sobre vêem os olhos.

Mas isto é evidente. Oras...

Não tão evidente quanto parece.

É sim

Não, não é! Os olhos não vêem a cidade que se depara diante de si, senão o universo por completo, com estrelas, nebulosas iridescentes, sóis incandescentes e galáxias por completo. Isto é o que vêem os olhos das corujas, com todo seu esplendor e poder.

Absolutamente, esta parte não pude concluir.

Há coisas que não possuem lógica coerente, ainda que assim seja elas se efetivam e se fazem presentes.

     Exausto, após finalizá-la,  o artista fica extático diante de sua obra. Embasbacado por sua criação haver fugido em tamanha proporção de suas intenções e talvez até de seus consentimentos. A ilusão de todo artista é por certo criar algo que seja maior que si mesmo, usufruir de inspirações profundas e fugazes, cantar ao sons de sinos, com notas que se mesclam em sinfonias inimagináveis. Voar num mundo de cores da aquarela que se tornam tão vivas que com ele e com seus pensamentos movimentam-se numa infinita ciranda da aquarela. O sonho de todo artista é voar com sua arte a céus desconhecidos, ver estrelas, galáxias, luas, corujas, estátuas, mares até então desconhecidos, para que depois em tudo isto, tendo usado sua vontade de criar e haver seguido o caminho da criação deleite na margem de seu coração as lágrimas de mares já nadados, de obras já realizadas.

21 - A visão de Izaquiel o bêbado

 

Vigésimo primeiro conto: A visão de Izaquiel, o bêbedo

 

-             Sentimentos fraternos, a paz derradeira irá provir de um mártir, eu vejo, eu vejo... Está escrito na face do destino, não há modos de apagar. – Disse um bêbado chamado Izaquiel na rua enquanto era assaltado por um visão angelical de dois arcanjos celestes que traziam um uma harpa que ressoava majestosamente em suas mãos, o outro uma trombeta de sonoridade extasiante.

-             Quê dizes homem? Acaso estás tão desnorteado que não tens conciência de tua situação? – Disse Marcondes abismado com as palavras extraordinarias de seu comparça,Marcondes era um homem gordo e atarracado, quase sempre vestido com um paletó verde e uma camisa beje, o que lhe conferia uma harmonia destoante de cores antagonistas, neste momento inusitadamente estava em plena sobriedade, costumeiramente acompanhava Izaquiel em muitas de suas aventuras, assim como era Sancho Pança para Don Quixote de la Mancha.

-             Não falo de min, falo da verdade, pois já há muito não me preocupo comigo, o que me importa? Não me deixaram nada, por isto só me preocupo com os outros, com a verdade do mundo. – Proferiu Izaquiel, apontando com mesma mão com a qual segurava a garrafa à um dos cantos da rua, como se a verdade do mundo estivesse ali mesmo e fosse tão palpável quanto a garrafa,

-             Vai dormir, já se faz tarde. – Costumeiramente, isto era o que Sancho, quer dizer, Marcondes sempre dizia quando queria indicar que o outro soltava demasiadas asneiras e devia calar-se o quanto antes.

-             Dormir? Não, não posso ir dormir, o mundo precisa de min, pois é chegado o momento em que impávidas andorinhas marcharão rumo ao infinito, todos os animais irão junto e até as águas do mundo evaporarão para sempre.

-             E quê dia será este? homem de Deus... O dia em que parar de beber? – Disse o outro com sarcásticas gargalhadas, lembrando-se neste exato momento as tantas garrafas esvaziadas naquela mesma noite.

-             Está próximo. Vejo a face do destino. – Izaquiel, ao mesmo tempo em que caminhava olhava para o lado, com uma feição estática de dar pavor a qualquer pessoa normal, Marcondes só não se apavorava porque não era uma pessoa normal. Suas pupilas estavam tão fixas que a figura de Izaquiel, quando contemplada parecia mais uma foto que propriamente realidade em movimento. Suas visões eram cada vez mais abrangentes, centenares de arcanjos desciam dos negros céus noturnos, seus olhos estáticos até então se esbugalharam, num fenômeno fantasmagórico.

-             E o destino lá é alguém para ter face? – Disse o outro “encucado”

-             Acaso não sabes o que é uma metáfora? – Explicou pacientemente o bêbedo

-             Estas coisas de previsão do tempo são besteiras que inventam, sabe-se que é impossível saber as coisas antes que aconteçam. Vês como a imaginação do homem é fértil. – Disse o Marcondes num surto explicativo automático, com os olhos fixos no chão, chutando alguns pedriscos graúdos que se deparavam em algumas fissuras oblícuas da calçada.

-             Como você é difícil Marcondes! – Reclamou obstinadamente em um tom de voz pouco mais alto e incisivo Izaquiel, crendo insuportável o fato de que o outro não lhe entendia os termos. -  Um conceito tão simples e você têm tanta dificuldade de assimilar, não posso perder tempo explicando detalhes à você.

-             Quê é então metáfora?

-             É uma força de expressão?

-             Hãn? – Perguntou Marcondes totalmente desnorteado com a explicação fornecida, que segundo seu critério pessoal ficara extremamente limitada

-             É quando alguém quer dizer uma coisa, só que fala outra no lugar para facilitar o entendimento.

-             Claro, claro... Algo tão simples... Como não pudera eu imaginar isto antes?

-             É questão de sabedoria.

      Alguns tropeções depois e muitas palestras deste mesmo caráter chegaram os dois à um termo único, onde o mundo um dia acabaria, e que todos deveriam se preparar para este dia, em que os anjos e arcanjos desceriam em múltiplas falanges do céu, como numa orquestra de harmonia e melodia de indescritível belezas. Este seria o dia do juízo final, onde os justos seriam congratulados com bebidas às favas e os injustos castigados impiedosamente.  Não haviam modos de apagar: a face do destino já estava escrita, a justiça seria o porvir da humanidade, a paz derradeira viria aos bons de coração enquanto os maldosos receberiam o tormento de suas próprias injúrias. Este não só estava próximo como já havia chegado, pois Izaquiel via que os anjos, naquela imensa orquestra o levavam embora, ao céu. E tendo ele na terra esperado seu quinhão de felicidade, tendo recebido somente amarguras no céu teve motivos de se alegrar, não pela bebida que esperava receber às favas, nem pela companhia que impertinente continuou a mesma, mas sim pela derradeira paz que conforme proscrita se fizera verdade. Izaquiel, o infortunado era um homem de Deus.

Thursday, October 31, 2024

20 - Quê faz o amor?

 

Vigésimo conto: Quê faz o amor?

 

      Seus lábios são tão belos quando fremiam, que ela parecia por breves momentos estar num outro mundo, num passado ou num ambiente da imaginação. De fato, notavam-se peculiaridades como estas nela. Maria não se incomodava com qualquer coisa, pois era uma pessoa de bem com a vida, seu pequenos olhos, posicionados bastante próximos um do outro pareciam atuar junto com uma coloração azul claro, o que lhe dava um ar de sutileza e meiguice fora do ordinário.

      Uma beleza de tal envergadura que deixava atônito aqueles que a viam a primeira vez, e a segunda, e a terceira e assim por diante, numa cadência sucessiva e provavelmente infindável. Maria era tão sutil que sobrepujava em sutilezas à luz esplendorosa do sol, quando transpassava as folhas de frondosas árvores formando luminosidade quase que mística quando em contato com as brumas da floresta. Ora, não é a todo momento que se depara com uma mulher verdadeiramente deslumbrante como esta, sim, não, não julguem vocês que estou falando sob a ação da hipnótica poção do amor, definitivamente não ! Meu critério é tão cauteloso quanto verdadeiro! Tão sincero quanto contundente! Se julgarem acaso que falo com minúcia, é que uma obra minuciosa pede descrição igual.

      As belezas deste mundo devem ser vistas com olhos não humanos, mas supra humanos, aqueles que olham para Maria apenas com olhos de homem não a vêem por certo em toda sua plenitude, sequer se dão conta de toda a sua grandiosidade, uns olhinhos azuis tão meigos, que se contemplados verdadeiramente nos fazem cair em lágrimas, num pranto divino, algo que somente os anjos celestes poderiam explicar com maior clareza. Naquela ocasião entretanto tudo desmoronava repentinamente, eu não sabia que fazer, pois não vira jamais aqueles lábios finos tremer daquela maneira tão desoladora, sua boca pequena estava mostrando certa amargura, e eu sentado num banco do jardim não sabia que fazer, já que mesmo estando lá, diante dela,não a conhecia senão por muitos momentos de um amor ou uma veneração contemplativa. Dela sabia tudo, ela porém nada sabia de min.

     Com um medo besta e estúpido atravanquei minha meu corpo que mais parecia uma carcaça de boi jogada ao campo, num gélido temor senti a mácula de minha vergonha. Tanto hesitei que ao tentar andar dei um paço em falso, e acabei por tropeçar pateticamente em minha própria perna, caindo quase no colo de Maria, fiz, pelo que notei, com que ela se olvidasse do que sentia, pois naquele mesmo momento parou de chorar a ver que tipo de ocorrência, ou que louco era aquele.

-             Desculpe, acho que caí Maria. Errr. Nem me apresentei, meu nome é Frederico José Antônien Silveira, geralmente não costumo ser tão desajeitado ou descuidado, no entanto quando andava por aqui ocorreu-me de contemplar parte daquele lago ali na frente e inesperadamente tropecei naquela pomba que ali está, como a senhorita Maria pode mesmo ver com seus próprios olhos, aquela ali, não, a que está comendo umas migalhas de pão. Sim, se está demasiado longe para que eu pudesse ter pisado nela é porque de tão aterrada deve ter voado rapidamente para longe de min, pode inclusive a senhorita notar que nela há algumas penas esvoaçantes, fato provocado seguramente pelas turbulências de minhas pisadas, mas não, não tenha de min impressões negativas, foi absolutamente sem querer, não tive a intenção de causar quaisquer danos à ela.

-             Meu caro senhor... Qual o teu nome mesmo? A sim... Senhor Antônien, vejo que passaste uns maus bocados com aquela pomba, que porventura come uns alpistes tranqüilamente à no mínimo um quilômetro daqui, sim, se é isto que diz o senhor não vejo motivos para contraria-lo. Absolutamente não! É bastante plausível isto que me diz o senhor, com excessão do fato de que não consigo enxergar as penas da pobre pomba dado à distância que ela se encontra de nós, mas isto não vêm ao caso, sente-se direito a ver se te acertas, me parece que estás excessivamente nervoso. Claro, claro, mas não custa nada sentar-se e descansar um pouco. Pressa? Não, por favor, tenha a bondade, apenas recomponha-se, aliás: Como sabe que me chamo Maria?

      Pode ter sido algo desastroso, o modo como conheci Maria, mas assim foi, em meio a desculpas desencabidas para justificar um nervosismo desmensurado que travei um contato inicial. Foi de grande proveito conhecer suas amarguras, pois assim pude atenuar seus sofrimentos com conselhos que lia todos os dias sem falta numa interessante revista semanal de curiosidades femininas, ela por certo nunca desconfiou das fontes de meus sábios conselhos, ainda que eu tenha me utilizado desta artimanha pouco incorreto do ponto de vista ético, na moral os conselhos foram sempre bastante pertinentes.

      Não obstante, este fato considerei uma verdadeira futilidade quando comparado com a sensação que tinha quando me aproximava de Maria, um sentimento agradável, terno. Sentia-me mais leve, embalado de pensamentos esvoaçantes, ficava longe de min. Ela? Ela me conheceu, e notou as minhas inequívocas intenções de uma aproximação mais próxima. Assim, após pronúncias e conselhos dos mais diversos, pela afeição que criamos um pelo outro não foi necessário muito para criarmos um... Um caso, sim um caso, não poderia dizer ser aquilo exatamente um namoro, por uma característica de inconstância. Por isto minha alma sofreu demasiado, ela não me desejava com o mesmo vigor, claro, claro supostamente não me amava, julgava-me um tolo ou desconfiava dos conselhos plagiados... Por muito tempo recalcitrei sobre esta penúria pela qual passava, e quais poderiam ser exatamente os motivos causadores. Tanto pensei que num diz cheguei à uma solução, através de uma suposição bastante lógica: ela estaria agindo desta maneira tão desregrada por um desejo incutido no âmago de sua consciência. Por certo era o próprio amor, o responsável pelas ações incertas e duvidosas que provinham de sua parte. Meus caríssimos leitores: esta genial conclusão me levou a crer que precisava tomar uma atitude o quanto antes, que fizesse comprovar a hipótese, que convenhamos, é tão sábia quanto perspicaz.

      Num belo dia de sol, enquanto pássaros alimentavam suas ninhadas com minhocas, e gaviões  opulentos pairavam nos céus, estas aves majestosas e silenciosas que voam no topo do mundo pareciam me dizer coisas. Foi de supetão, após sete anos vivendo nesta modesta situação amorosa, aos trancos e barrancos eu a pedi em casamento.

     Não foi nada agradável ouvir da parte dela uma resposta negativa, para meu espanto tudo havia acabado. Foi então que contratei um detetive, que descobriu que quando Maria ia à sua casa entrava num receptáculo semitransparente parecido à um globo de vidro ou cristal, insinuou-me através de fotos que ela não era humana senão um ser distinto, que ao entrar neste globo se dividia em centenas de Maria pequeninas, era lá que passava toda a noite, melhor dizer: que passavam a noite, numa semi-luminosidade azul translúcido. Miríades de Marias que pela manhã se uniam novamente. Fiquei petrificado, e duvidei daquele detetive julgando-o um farsante e fraudulento, que podia estar fazendo fotomontagens das mais enigmáticas e fantásticas, duvidei até o momento em que vi com meus próprios olhos.

      O pai de Maria certo dia disse que ela nunca poderia se casar comigo, neste dia me mostrou que em sua casa havia um compartimento secreto que levava ao centro da terra, que era muito quente, descemos pela portinhola e escorregamos por um longo tubo até o centro da terra, onde miríades de seres pequeninos perambulavam por uma cidade toda, tudo ao redor era avermelhado com pedras incandescentes. O pai de Maria se dividiu em muitos, e eu fiquei parecendo um gigante. Após conhecer a inusitada cidade o pior de tudo foi ter de subir tantos quilômetros para a superfície, onde com bastante compreensão pude entender e atenuar meus laços afetivos com Maria. No entanto esta estupenda novidade não foi causa de quaisquer infortúnios senão motivo para o aumento de meus sentimentos mais nobres, pois ao invés de uma Maria haviam centenas delas. Agora, somente agora eu entendo por quê o amor faz multiplicar a fraternidade.

19 - O pintor de sonhos

 

Décimo nono Conto : O pintor de sonhos

 

 

      Efetivamente, a única coisa que fazemos enquanto vivemos, excluindo as coisas fúteis é buscar o sentido da vida, no intuito de algo discorrer sobre este mesmo tema, na possibilidade de acrescentar algo de útil à nossas existências está este conto, considerado por muitos como uma ilusão, no entanto por outros uma profética revelação das verdades humanas mais profundas, supostamente a revelação mais reveladora que se posa encontrar em milhares de anos. Não é qualquer presunção de minha parte dizer isto, pois por muito tempo pensou-se que os contos tivessem apenas o caráter de distração, após muitas gerações os mais felizardos tiveram a sensibilidade de notar que a linguagem dos contos traduzem as problemáticas humanas mais sinceras. Assim que inserimos aqui este conto para ilustrar a problemática mais essencial, a raiz de tudo, a origem: a própria existência:

      Estava Américo dormindo em sua casa de campo, uma casa de excelentes proporções, onde sempre que possível fugia às obrigações do trabalho intenso e fatigante para ter com os seus em seu refúgio campestre, era lá que se refazia da própria vida que levava. O que nos parece uma paródia: se refazer da vida, como se a vida não pudesse ser denominada com este nome: “vida”, os fatos mais atuais têm demonstrado que a denominação mais adequada para esta estrada pela qual perpassamos devesse ser algo como “desgaste” ou “tormento”. Assim perguntar-se-ia: 

      Não! Não podemos nos precipitar, pois tudo o que aqui será dito é relativo ao periodo de tormento, e não ao de vida de nosso personagem Américo. Alí estava ele, tranquilamente acendendo um cigarro, extra-forte daqueles que acendia sempre quando ficava mais tenso, mas tenso porque era tenso por natureza. Efetivamente vamos ver quê pensava ele neste momento.

       Não consigo me entender, estou cada vez menos atarefado e cada vez mais fatigado, a vida vêm me concedendo momentos exaustivos, trabalhos infindáveis, caminhos medonhos, verdades vãs, tudo perece obscurecido por algo invisível, mas que provoca uma sombra das mais pérfidas. Neste pátio tão belo em teoria não consigo ver a luz que se depara diante de meus aolhos, não sinto mais a fragância das rosas que suavemente pupulam com um ressoar de ventos longínquos, sim  o ressorar destes ares rápidos e apressados das folhas de árvores desconhecidas. Onde estarão indo eles senão de encontro às minhas narinas, e aos meus pulmões que há muito nada conhecem senão o vício torpe e maléfico da nicotina. Vejo que o destino me reserva caminhos desesperadores, me esconderei em min mesmo fugindo ao mundo que me cerca, soarão os cânticos mais tristes, as ladainhas mais cansativas, morrerei! Sim por certo é isto que me ocorrera. E não irão todos à este mesmo poço? Não acabarão todos suas ações ineficientes, improdutivas e  inócuas sobre a terra. Vejo que se porventira, oh, mas que pensamento, se porventura alguém pudesse ler o que penso estaria perdido. Sim, a pessoa se perderia juntamente comigo, talvez eu à levasse donde não quizesse ir, pois tal é a proporção de minha desgraça que vejo influenciar até os que andam comigo: amigos, parentes ou mesmo conhecidos. Haverá solução?

      Isto foi o que fizemos, entrar na mente de Américo enquanto fumava por alguns instante, de sorte que percebemos a dimensão de seu aspecto grave e medonho, mas este não foi seu derradeiro fim, senão começou a perceber que trabalho era bom, mas não era tudo o que dispunha na vida. Era uma pessoa inteligente, mas há muito parecia ter perdido a sabedoria para o discernimento exato do que podia fazer para bem viver. Decidiu, num ímpeto intuitivo fazer um curso de pintura, de fato, nunca havia pintado antes, no entanto vendo um anúncio no jornal sentiu-se por momentos incitado a logo virar à outra página a ler as terrificantes notícias do diário policial, mas sua idéia veio a calhar quando numa espécie de surto epiulético sua mão não quiz obedecer-lhe a ordem que seu cérebro enviava em transmissões sinápticas, o que no momento julgou bastante curioso, ficando encomodado e ao mesmo tempo encabulado já que à esta altura estava no metrô, e todos o olharam espantados não exatamente por ele não haver virado a página mas sim pelo modo como ele franziu o cenho, como se estivesse tomado derrepente por pensamentos que não lhe agradavam, isto é o que pensaram os circunstantes do trêm do metrô. Após este episídio tragicômico decorreu que o fato de não haver conseguido virar a página f^%ez com que ele desse, ao acaso, um pouco mais de atenção ao anúncio das aulas de pintura, lembrou-se automáticamente do momento em que fumava preocupadamente no pátio no horário de almoço, e relacionando aquela triste situação com o anúncio do jornal, e todavia com a estressante situação pela qual acabara de passar pensou uma vez mais o que teremos a oportunidade de ler, já que a literatura dispõe de determinadas vantagens com relação à muitas outras artes, e com relação à própria vida real:

      Mas que merda! Minha mão não que virar a página, é o cúmulo eu ter chagado à esta situação vergonhosa, assim vou denegrir minha imagem de respeito, e até um pouco de soberba, devo confessar, que imponho lá no trabalho, que são atitudes essenciais para que eu continue mantendo um posto tão elevado por lá. Mas veja isto, que coisa horrível, quer dizer, eu já tinha lido antes, e agora me parece algo aprazivo: um anúncio de cigarros da Mona Lisa, quer dizer, não era isso: Aulas de artes três vezes à semana, e ainda têm mais: Estudos aprofundados da história da arte com seus respectivos momentos de prática artistica, venha ser mais um diletante amante das cores e da enlevação do sentir. Mas que palhaçada é esta? Quer dizer, é um tanto diferente, e se possivel irei procurar esta escola de cigarr... quer dizer: de artes. Isto é definitivamente inconveniente, se acaso alguém pudesse ler meus pensamentos aqui neste metrô me tomariam como um louco, pois além de não controlar minhas mãos, mesus pensamentos parecem tomar uma liberdade inigualável, não, não posso estar sofrendo de personalidade dupla, isto que os psicólogos dizem, estas loucuras... Estarei eu em tal estado de insanidade que penso com tal contrariedade de idéias? Magnífico! Todos olham para min com estas caras patéticas e pasmas, estarão percebendo minhas reflexões? Não, não, isto seria impossível, de fato telepatia é uma coisa que proveio da fértil imaginação humana. Ora bolas, veja só em que situação me encontro, há já está chegando minha estação, vou me vingar de todos levantando-me de supetão, assim estes paspalhos vão se arrepender de ter rido de min, ora, mas que gente sem escrúpulos, gente assim não merece os olhos da cara, olho por olho dente por dente, todo homem têm o seu preço, tempo é dinheiro, tudo tem o seu limite, melhor um pássaro na mão que dois voando. Arrevoá.

      Assim, com um bom contingende de pensamentos aleatórios e distoantes Américo levantou-se aos tropeços, pois não notou um grande pacote de um ambulante que estava no chão do trêm, aos trancos e barrancos se desvencilhou de tanta gente que por mom,entos pensou que não iria conseguir sair naquela estação, fato que infelizmente se realizou, tendo ele que fazer uma demorada manobra para pegar o metrô no sentido inverso para efetivamente descer no lugar pretendido. Seus infortúnios eram muitos, sempre colocava a culpa destas desventuras na própria vida, quando na verdade a vida é maravilhosa, sendo ele o culpado de sua tristeza e revolta. Chegou em casa todavia mais preocupado, como se não bastasse o nível de tensão sobrenatural estava já pensando no dia seguinte, documentos importantes à serem entregues na empresa filial, reuniões primordiais para o crescimento da empresa, novos produtos a serem criados e lançados no mercado. Nem cumprimentou a esposa e foi banhar-se, jantou rapidamente o pouco de fome que se lhe deparava nas entranhas e logo postou-se no computador a trabalhar, trabalhou por duas horam em diversos projetos quando à uma hora terminou estava contundentem,ente exaurido de tudo, sim, do conjunto de situações que se acumularam no decorrer do dia, por momentos aqueles pensamentos sombrios lhe sobressaltaram os lobos diversos do cérebro, provocando sensações de desalento e molesa, não sabia muito que fazer, quando entrou no quarto a esposa já dormia, e nem tempo de falar com ela tivera, o que lhe pareceu uma insanidade, já que concluiu que a empresa evoluia enquanto ele denegria a si mesmo. Nós expectadores externos, podemos ter o privilégio não só de penetrar em sua casa e ver que faz senão em seus próprios pensamentos, o que é uma vantagem adicional na busca dos motivos mais imersos de sua realidade, é isto que muitas vezes faz um conto ser mais interessante que um “Reality Show”, sim, sim, supostamente estamos percrustando as sendas mais dialéticas da mente humana, que as aparências empíricas do mundo.

      É horrivel isto: trabalho, trabalho, trabalho. Até que enfim me dei conta de que o ócio proporciona a libredade do pensar, e o lazer de um periodo de descanço e provceito, minha esposa nem me deu bola, ou melhor: fuyi eu que nem a cumprimentei direito. Terrível, minha alma se entorpece em sentimentos confusos, pois a vida cai num terreno escuro, gélido, confuso. Há muito minha vida não tem sentido certo. Afinal: O que é vida? Vivemos para construir uma quantia enorme de bens e capital? De que adianta tudo isto se a alma morre aos poucos, e vai desistindo de viver, vai abaixando cada vez mais até ficar olhando o chão e andando sem sentido, pois não mais enxerga o que vai à frente. Almas perdidas, é isto que somos, almas extranhas a sí mesmo. Ó tristeza que me assola o coração. Haverá um despertar? Em meio à esta obscuridade de meu quarto, com toda aquela papelada lá no escritório me pergunto de que serve tudo aquilo. Tudo deveria ser mais simples, como, como... Sei lá, talvez como São Francisco de Assis, é, esquecer tudo isto e curtir a natureza em sua essência mais simples e sincera. Tenho saudades de meus tempos de moleque, quando subia nas árvores e fazia castelos de areia, naqueles tempos a vida parecia ser mais alegra e espontânea tudo tinha mais sentido. Minhas palpebras estão caíndo, acho que o sono está me vençendo, é de fato...

      Assim nosso personagem cai num sono letárgico e confuso, tendo em sí imagens de grande s pintores, conversava com muitos pintores, trocando idéias complexas à respeito de estilos e técnicas, depois teve a sensação de que o mundo era uma pintura, tudo o que existisse era misteriosamente colorido, os movimentos eram compostos por novas pinturas que ocorriam numa tela de proporções infinitas, e quem tivesse um pincel e tintas na mão era considerado um semi-deus e podia criar um monte de coisas no mundo, conforme a criatividade era manejada. Então ele passou a querer um pincel a todo custo, e passou a correr por campos pintados, castelos, cidades, selvas, pessoas e um monte de pinturas do mundo até que por fim encontrou um benévolo homem que lhe forneceu um pinceu, assim que teve a aquisição deste poderoso instrumento ficom extasiado, com um brilho no olhar que há muito não sentia, a felicidade lhe vasava dos lábios e os cabelos se tornaram revoltos diante de uma genialidade enevoante, era todo sorrisos, era gargalhada, saiu aos saltos pintando muitas coisas interessantes que lhe vinham à imaginação. Tornou-se um adulto com gênio de criança e sabedoria de idoso. Acordou como se ainda estivesse dormindo, seus lábios tinham uma postura de alegria total, a esposa, ao ver-lhe naquela situação perguntou qual era o motivo de tal alegria, e ele respondeu:

-             Minha alegria mulher, é provinda de um lugar mais próximo do que pudera eu imagirar em tanto tempo, da essência de min mesmo, é em min que está contida toda esta vontade de viver e encontrar o que há de melhor dentro de min e pintar no mundo, criando minha própria realidade no mundo, e não me submetendo às exigências que o mundo impõe de maneira forçosa. É isto, este é o motivo...

      De fato, aquela situação não era nada comum na vida de Américo, aliás era quase utópica, só não era utópica porque todo ser humano guarda dentro de si belezas inimagináveis. Que Américo decidiu fazer o curso de pintura julgo que não precisar-se-á aqui dizer, dado a inteligência e perscicácia do leitor prodígio. Foi então que o tormento se transformou em vida, e a vida vista como inigualável e constante novidade, arte, magia e por fim: Amor!

18 - O discurso da lembrança

 

Décimo oitavo conto: O discurso da lembrança

      Num ambiente descontraído, sim, um “hapy hour”, estavam um grupo de amigos conversando sobre assuntos diversos, sim, assuntos fúteis, destes que se conversa no dia a dia. Não é de se estranhar que tudo o que se possa imaginar deve hoje ser rápido, fácil e lucrativo. Neste grupo de amigos entretanto havia uma excessão, sim, uma excessão, um senhor lá de seus 50 anos, bem vivido, que era lá na empresa considerado como bastante esquisito, estranho. Sim, um sujeito para lá de peculiar, seu nome era Adalberto, e portador de um aspecto sisudo, bastante sério, chegando até a ser de tão sério um tanto sombrio, alguns o consideravam louco, outros esquizofrênico ainda que tanto uns quanto outros chegavam ao consenso de notar sua criatividade fora do comun. Era Adalberto um senhor introspectivo, com cabelos já em pouca quantidade e olhos de profundidade hipnotizante, em geral pouco falava, mas quando resolvia soltar o verbo por certo sempre havia grande maquinação por trás do que viria à tona. Por isto, mesmo tendo uma fama não muito invejada era considerado nobre e de caráter correto.

      Foi nesta ocasião, naquele “Happy Hour”, entremeado num assunto loquaz e sem rumo certo ou nexo de lógica, que Adalberto decidiu interferir no assunto de maneira consisa e enfática, deixando os outros enquanto falava boquiabertos, causando à uns um assombro fora do comum, noutros uma atitude de devoção, paixão e um misto de contemplação e veneração.

-             Meus amigos, há muito pretendia dizer-vos algo, não obstante não encontrava momento oportuno para tal, e agora, justo neste momento, quando vejo que a sociedade, e nossa pequena sociedade sobretudo perde de si os valores mais profundos que podem perpassar um grupo, doando-lhes sentido, vigor, motivação e sentido de existência é que desejo exprimir umas quantas idéias.

-             Mas quê idéias são estas Adalberto? – Perguntou um homem franzinho, de óculos elegantemente pequenos – Há muito que não dizes nada, e agora, tão derrepente deseja falar?

-             Isto mesmo Marcos. – Falou Adalberto, sem direcionar seu olhar exatamente ao outro, mas deixando-o um tanto vago como se quisesse penetrar tanto em Marcos a ultrapassar seu corpo. – Há no mundo homens distintos entre si, no entanto a característica mais notável entre todos é a sinceridade, ao menos é isto que vejo nos olhos de cada um que aqui está. E mesmo que os assuntos sejam de caráter corriqueiro tenho a percepção de que este caráter somente se dá na razão e na lógica do pensar, mas que em sua essência se relacionam com um consciente mais profundo de cada um. Ao mesmo tempo que dizemos coisas banais transmitimos coisas profundas, é isto uma percepção que tenho.

-             Bastante plausível tuas idéias. – Disse um personagem, ao qual não vamos referir nem o nome nem a aparência para o leitor, mas sim que disse isto sem entender patavinas do que fora dito, em seguida propôs um brinde às fantásticas idéias do amigo com gestos empolgantes e vivazes.

-             Sim meus amigos. – Disse Adalberto, numa postura fechada e introspectiva, olhando para algum lugar que a quem o olhace imaginaria estar num longínquo horizonte. – Vamos brindar o dia a dia mundano, brindartemos as preocupações que ocupam toda a nossa capacidade de percepção da realidade, brindaremos a falta de silência, brindaremos a constante mácula que assola nossa vida.

-             Quê dizes? – Perguntou marcos bastante interessado.

-             Que os dias de hoje são tão profundos quanto os de ontem, o que se desvaneceu foi apenas a percepção de que tudo continua igual.

-             Estás desembestadamente louco este nosso amigo – Volveu o mesmo ingênuo que quiz brindar. – Curiosamente não tomou nenhuma.

-             Tomei sim meus amigos, no entanto o cálice foi mais amargo do que possam imaginar os senhores: o cálice da sabedoria, que traz consigo um peso incrível, pois, o triste é daquele que imagina saber quando na verdade se afoga na poça da ignorância, este é feliz quando percrusta obscuras sendas da perdição. O que já detém o conhecimento não se arrisca a ser feliz.

      Após este profético discurso todos ficaram por um momento em silêncio, num tom reflexivo, como no intento de decifrar caracteres que não conseguiram assimilar. Alguns com um ar de galhofa fizeram um ou outro comentário engraçado tentando demonstrar feições despreocupadas, o que era impossível dado ao fato de que foram atinjidos profundamente pelas verdades que haviam sido reveladas. Outros ficaram estáticos, completamente calados, numa postura eclesiática, quem prestou atenção percebeu claramente que alguns fios de cabelo de suas cabeças levantaram em reverência ao sábio que ali estava. Tanto uns quanto outros perceberam o peso moral da seriedade de Adalberto, pois aqueles que o levaram como um saltimbanco louco não sabiam que seus conscientes profundos o reverenciaram, os que ficaram em silêncio não entendiam exatamente o que fora proferido pelo homem, e talvez até por isto o respeitaram com afeição inequívoca.

      Após esta pequena conferência existencial Adalberto calou-se, sem reparar a reação dos circunstantes, simplesmente levantou-se, e num tom absolutamente fez menção de cumprimenta-los com as mão, gesto que não completou, olhando-os nos olhos por breves instantes abaixoi a cabeça, e como se quizesse ir embora virou-se no sentido da porta daquele estabelecimento, ficou ali parado, os que estavam sentados não entenderam, por isto ficaram sem reação sem sabr se chamariam-no de volta ou diziam thau. Foi pouco depois que ele virou-se novamente no sentido da mesa, e olhando à todos com profundidade e magnitudes inconcebível disse veementemente:

-             É meus amigos, há tempos venho recalcitrando em questões que me infundem desespero e alegria ao mesmo tempo, pois assim é todo o conhecimento perene, tem vertentes completamente distintas, é por isto também que se anula em si mesmo, e faz com que o tudo que se possa conhecer não exista. Mas não fujo ao assunto que aqui me traz novamente – Disse isto como se houvesse realmente ido embora e retornado mais uma vez, o que ninguém, definitivamente ninguém riu não porque não perceberam nesta questão, mas sim pela sinceridade a alcance daquele olhar incisivo. – Estou aqui novamente por causa das lembranças que me assolam, já pensaram vocês nas lembranças? Estas imaginações fugazes, fugidias, imprecisas que nos chegam em momentos que não são por nós escolhidos em horas presisas, senão como por vontade delas mesmas nos momentos em que elas julgam oportunos. Que para nós podem condizer com momentos inoportuno. Sim,sim: estas incontroláveis imaginações já vividas que nos perpassam pela mente numa cadência desordenada, que não chega tão somente à raz~```ào senão que audaciosamente chegam às sendas do coração, incindindo às vezes em fenômenos corporais como aumento da frequência cardiaca, e em explosões respiratórias. Há lembranças, vocês são vivas, têm vontade própria, todas vocês vivem dentro de min. Como são belas...

       Adalberto, num extase provocado por seu próprio monólogo curvou-se em reverência à suas próprias idéias, todos o olhavam embasbacados esquecendo-se até de onde estavam ou quantos pudessem estar notando a atitude distinta do comparsa.

-             Vamos Adalberto, todos entendemos suas idéias, que aliás são profusamente interessante, no entanto9 estamos com certos problemas que devem ser debatidos, não que isto não nos interessa, não, não, isto em hipótese alguma. Sabe, errr, é que tudo o que discorremos não é exatamente filosofico, quer dizer, até é, mas temos uma premencia de assuntos mais importantes, não que este não seja...

-             Cale-se! -  Gritou Adalberto impaciente, fazendo não só com que ele se calasse como ele mais metade do estabelecimento, o que foi tragicômico e dramático à todos os envolvidos com aquela cena pitoresca e pouco divertida. -  Não disponho de tempo para suas desculpas ignóbeis meu amigo, aliás devo ausentar-me para não pagar mais o preço de minha própria sabedoria, não que não seja educado porque isto julgo ser portador, mas não suporto que de maneira tão repetitiva o senhor permaneça nesta impertinência descabida. Senhores: Adeus!

      Assim Adalberto, o peculiar integrante daquele grupo deu meia volta e foi-se a passos firmes e resolutos, numa atitude brava e heróica, enquanto os outros se recompunham da maneira a transparecer o menor contrangimento possivel, o que efetivamente era utópico, dado às proporções da situação criada por Alfredo. É assim que a partir deste dia todos passaram a entendê-lo pouco melhor, aprendendo também que Adalberto não era somente um louco errante como um profundo provocador das situações mais diversas da vida, é no detalhe que se encontra a solução, é na profundidade que está a sinceridade, é na filosofia que está a verdade.

34 - Pássaros de luz

  trigésimo quarto - Pássaro de luz Vida vida corre vida, corre para lá corre para cá e se esvai, se esvai. Engrandece cresce. O pássaro d...