Friday, November 1, 2024

27 - Homenagem aos gênios

 

Vigésimo sétimo conto: Homenagem aos gênios

 

     A vida está em constante mudança, ora estamos em situação favorável, ora desfavorável. No entanto tanto numa quanto na outra situação o sujeito que as vive é o mesmo, de modo que sua essência é sempre a mesma, estando sempre em desenvolvimento linear. Uma tristeza imensa toma minha alma hoje, até parece que os dias floridos de ontem não passaram de sonho inócuo, algo há muito dissipado. É detestável chegar ao patamar de não ter nada para fazer, nenhum projeto, nenhuma vontade, nenhuma ambição. Me parece que o ser humano depende disto para sentir-se animado, a alma se embebe de vida quando somos acometidos por novas idéias, vontades ou sentimentos. O novo é uma necessidade do espírito para bem viver, tudo deve ser novo todos os momentos, do contrário a vida se transforma em monotonia e velhacaria. Para que então o homem não perecece em decorrência de sua fraqueza natural, em virtude de sua pasma inatividade, uma modorra inerente à todos, um estado estático e fraco Deus decidiu trazer de vez em quando certos naipes de pessoas que alterariam este modo de viver destrutivo e desvantajoso ao coração humano, assim que prestamos esta homenagem parca e miúda, diante da grandeza de cada um destes músicos. Pois tais foram suas façanhas criativas que nos prontificamos de maneira decidida a embasbacarmo-nos com tamanha grandeza e veracidade de espírito. Que Deus nos conceda ao menos o infindável prazer de conhecermos seus trabalhos, suas obras perenes e suas incontestáveis verdades morais, pois tal é a essência que na arte se incrusta. Os artistas são homenageados através de contos que procuraram retratar através de expressões linguísticas as suas frases musicais de envergadura vasta e latente em nossas mentes, em nossos corações.

Brahms, Elgar Mussorgsky, Hector Berlioz, Smetana, Mahler, Edvard Grieg, Beethoven

      Brahms: Bem, dados jogados à mesa... Qual será o resultado? Aquele que sabe atua conforme sua sabedoria, isto é inevitável. Se sabes tu que todo ser humano vive um inestimável “script”, aventura profunda e tocante, história inigualável de proporções avassaladora. Vive pois o teu teatro, chora a tuas lágrimas e ama os teus circunstantes, agüenta o que te vier e têm a convicção de que estás dentro de uma jornada de grande sentido,  um caminho há de ser percorrido, com princípio meio e fim. Faz como os atletas que correm: percorre a tua aventura, perpassa os dilemas, as amarguras e dificuldades da senda com cabeça erguida, se cair levanta-te e segue, mas por favor, nunca esquece, custe o que custar: lembra-te de que há um nevrálgico sentido na vida, pois a vida... A vida é uma aventura!

      Elgar: Oh! Quanta ternura, quanto!? Quanto... Como poderei descrever? Quanto sentido! Talvez cantando poderia melhor me expressar, pois a música vai até onde a linguagem não pode chegar... Passou-se a tempestade peçonhenta das dúvidas que antes me provocavam tristeza e amargura, quantos males e nadas me abatiam... No âmago de minha vida está o suspiro derradeiro: aquela nota que se apresenta, e ressoa de maneira profunda chegando ao coração, as plantas que em noite silenciosa iluminadas por uma luz mágica de noite estrelada me parecem falar mesmo sem boca para qualquer palavra proferir e mais entendo elas que à qualquer outro que me queira contatar. Serão elas minha própria consciência que voa a silencioso lugar, silencioso porque a profundidade é silenciosa, no abissal fundo do oceano criaturas soturnas vivem um eterno silêncio, nas horas vazias de barulho da noite há tanta vida do espírito que chego à me extasiar com suspiros que saem de meu peito involuntariamente. Estarei eu a chorar? Choro a tristeza do mundo, é na lágrima triste e nos suspiros que antes as provocaram terna e profundamente que sinto a luz do sentir. Óh lágrimas humanas! Chorar a aventura humana, impetuosamente, veementemente, tempestuosa e forte como um touro é esta onda de sentido e certeza que me entra como uma torrente, o sentido da vida... Qual é? Me parece que é chorar... Pois enquanto choro nada mais é necessário, tudo o mais seria brincadeira.

  Mussorgsky: Então penso que a aventura da vida é a todos amar. Tão simples e singelo que não sei como não pude nisto antes pensar.Ela é muito grande, não se resume à isto de forma tão simples, há algo misterioso no ar, que jamais vamos nós resolucionar, pois mistérios foram feitos para se perpetuar. Que dirá aquele que descobrir uma verdade existente para ser um mistério? Terá alguma “graça”a vida deste? O mistério é uma questão nevralgica na vida do ser. Não existindo nenhum mistério faltará certamente algum ingrediente na vida. Fadas, magos, gnomos, elfos, curupira, saci-pererê e caipora. Lendas, mitos, contos e histórias para lá de cabeludas. Que graça há por vezes nestes contos, muitas travessuras, muitas historietas divertidas e interessantes Uma marcha fúnebre é a trama do ar, a trama de nossas vidas: intrincado caminho inter-relacionado que demanda de nós a inteligência e perspicácia para solucionar, pois: Quê é nossas vidas senão o maior de todos os mistérios? O mais instigante! Acorda amigo! Acorda para as questões da tua vida agitar e destrinchar. Se ficares si como moribundo certamente vais desfalecer e perder-te em caminhos inócuos. Num trabalho árduo, como um escravo, cavalos suando e bois carregando pesadas charretes, é assim que vejo a vida meus amigos, viver é tarefa imprópria para fracos, ainda que hajam lá seus momentos banais e descartáveis, outros até desprezíveis, umas brincadeiras e frivolidades. Impera no entanto o grande vôo: que indica um caminho profundo de inesgotável sentido, sagrado, religioso, aterrador e silencioso num só tempo. Esse é o caminho verdadeiro do homem que se presa, que se valoriza. Um abismo com corda bamba é isto que vejo como sendo vida: difícil de ser tranpassado. A verdade palpita de meu peito: Sentes tú o que sinto? V6es tú o que vejo? Se não ao menos escutas para notares a proporção de tudo que ví de tudo que passei no decorrer de minha vida, escutas, escutas, eu clamo. Falarei baixinho para os outros não escutares.... Sabes? As paredes por aqui podem ouvir, e há certo temor, um estranhamento nisto. É só a ti que quero dizer. Muito sofri, muito chorei, se contardes todas as vezes e as lagrimas juntares poderás certamente fazer um lago bastante grande num descampado e nele nadar, ou até de remo brincar. Sou feliz porque sei que no final da vida u momento haverá em que minha alma se alegrará, uma grande porta se abrirá, ofuscante como pérolas a brilhar, talvez até com amigos já mortos a me recepcionar. Óh como brilhará minha alma de satisfação, poderei até um pouco mais chorar, não mágoas tampouco amarguras mas sim por um novo caminho encontrar, que estarão sinos a ressoar não posso negar, é por isto que não me canso de lutar... Sabe? Me aventurar pela vida em caminhos dos mais diversos, abrindo trilhas aqui e acolá. Que sejam as aventuras de nossas vidas os caminhos mais interessantes, belos, proveitosos e misteriosos!

      Hector Berlioz: Sabe que às vezes, num tépido dia de verão começo a observar o longínquo horizonte, numa paisagem natural ou mesmo citadina e acabo por perder-me dentro de min mesmo,  é aí que sou acometido de uma dor no abdômen e certa desolação emocional, uma tristeza vazia e desgraçada, alguns devem me olhar e  a si perguntar: - Que é que têm este sujeito estranho e peculiar? – Olhando e notando ao meu lado uma pitoresca e interessante figura eu lhe disse: - Homem nada tenho que não esteja dentro de meus hábitos diários, nada que seja lá alguma coisa considerada alarmante. Alarmante... Ah se tu soubesses o quanto minha alma se entristece por um amor não correspondido. Mas isto não vai querer escutar, é assunto triste e sem graça... Que pode haver de interessante na alma de alguém com a desventura que tenho eu? Que poderá me acalentar além de minha singular tortura? Aliás esta não me acalenta senão causa grande sofrimento, estou sempre parado por todos os cantos, meado em multidões nada vejo senão aquela que é motivo de minhas flagelações.  Em momentos, a impressão que tenho, de que sobrepujam laivos de esperança, que me fazem dar uns sorrizinhos de vez em quando, ora estas, de qualquer forma toda gente com quem ando estranha pois quando falam sobre um assunto específico estou a sorrir, mesmo que o assunto não demande ou requeira esta atitude, é aí então que a suituação se torna imprópria e até inconveniente. Quê direi eu à eles? Que estava distraído? Isto não pode ser considerado uma distração senão a questão que me assola, um ponto ímpar na minha vida, aliás nem tenho vida, pois se esvaiu junto com minha amada. Não me faça lembrar... Quanta dor... Eu prometo que nestas noites de verão estarei a compor poemas para você, assim ao menos, fictíciamente estará meu coração pouco mais consolado, não minha mente, pois esta sabe do que é amor platônico.  Não posso no entanto perdurar numa auto ilusão, haverá um momento limite! Talvez bastante sombrio, neste momento só aí estarei liberto, pois o amor prende e não sedejo sinceramente ver-me toda vida a lamuriar pelos cantos a ver desvanecer diante de min a imagem da alegria. Os clamores subirão de forma bombástica, gritarei desesperadamente, como um louco atroz tomado por acesso de fúria que meu desespero se consumou até as últimas conseqüencias, que este seja o momento derradeito ounde até uma certa hilaridade se mescle com toda esta explosão. Definitivamente: Não é a loucura hilária? Certo temor me sosobrou após tanta energia dissipada de forma estrondosa, certo dia tive de me apoiar numa parede em meio à uma festa, os que viram me chamaram a retornar seus assuntos fúteis e veniais. Quê fazer? Parece que estou doente, é um pouco pálido, não me alimento bem nos últimos dias, até tenho uns pesadelos terríveis esporadicamente, acho que vou morrer...  Os cáusticos clamores que ressoam em minha alma parecem lutar de forma misteriosa contra forças ocultas, surgem então os laivos de esperança mais belos que se possa imaginar, aliás é nestes momentos que percebo que em minha vida nunca passei por momentos tão afetuosos, sutis  e digamos enternecedores... Por que está a  luz tão próxima da obscuridade cruel e sórdida? Talvez seja uma dependente da outra, mas que óbvio!  Tão óbvio que faz crer-me um pateta por não haver antes pensado nisto...   Fui certo dia assistir à uma corrida de cavalos, até fizemos algumas apostas, e lá tive certo esquecimento de tudo que ultimamente vêm me acometendo, inclusive alguns olhares de uma dama belíssima recebi, fazia calor, e estava com tal disposição de espírito que até retribuí os elogios recebidos com outros tantos, situação corriqueira, banal e até um pouco supérflua que adquiriu a partir de então todas as minhas atenções, todo o meu coração!

Smetana:       O mundo têm um compasso de harmonia e beleza inigualável! Certa vez andando por uma rua atulhada de gente parei, estanquei diante de uma vitrine fantástica: Uma confeitaria, minha boca salivou de ver as belas tortas doces, doces de todas as cores, sonhos de chocolate. Que delícia! Eis que neste momento extasiei-me, fiquei desnorteado e embevecido quando notei que dentro da loja encontrava-se minha bela amada, um olhar meigo, terno e úmido ressoou de meu coração em direção à sua alma, os doces, por mais coloridos que fossem ficaram mudos, por mais saborosos que pudessem ser tornaram-se uma sombra, pois via cores, sabores, sons e belos odores nuns olhinhos pequeninos e risonhos. Que mais podia eu querer senão o mundo?

Mahler:  Andava firmemente, compassado e constante, numa trajetória linear pré-estabelecida. É assim que era aquele sujeito, assim que todos o percebiam, até que inesperadamente parou, e reviu muitos de seus conceitos, decidiu sair por aí sem sentido certo, numa dança confusa e improvisada, até tropeçou algumas vezes em pedras e arbustos, pois de tal maneira foi dançando que desviou-se da estrada, caiu e se levantou muitas vezes como se bêbedo estivesse. Sem que ninguém esperasse retornou à estrada e prosseguiu seu caminho da mesma maneira que antes fizera, com a mesma conduta linear,programada e compassada., alternava ora uma atitude ora outra, nos momentos em que tinha-se a impressão que andava desnorteado, tal como um louco ou um debilóide fato era que abria um largo sorriso afetuoso e belo. Sentia-se que estava tão feliz que até dava uma vontade de fazer igual. Certo momento pareceu encontrar certo equilíbrio, um meio termo entre um extremo e outro, o que particularmente julgo o mais adequado: seu nome era Vida!

Edvard Grieg: Os sentimentos são coisa fantástica, fantasiosa, por isto é que fantasio em torno deles, não, não em torno mas sim dentro, me embebo de sentimentos. Em devaneios mórbidos, em loucuras estonteantes, estático por vezes como uma pedra, olhar vidrado na escuridão e mente enaltecida, embevecida acalentada pelos prazeres do coração. É assim que fico ao ser tomado por ondas de sentimento! Ó quão belas são as potencialidades humanas, bondade, altruísmo e amor, que mais é necessário à moral elevada? O sangue parece correr com mais força, o coração pulsar forte, não descompassado como na paixão, esta fugaz vivacidade da alma, mas sim profunda e energeticamente como no amor, esta faceta mágica do ser humano, este caminho espiritual e brilhante. Que alegria! Alegra-me o coração, o corpo a face sorri de tanta alegria. Que alegria! Numa vivacidade fora do comum quero aos olhos de todos olhar, para passar isto que está dentro de min, mas passa que isto não é uma vontade intelectiva, senão um impulso irracional e quase que instintivo, esta é a alegria mais verdadeira que se possa imaginar, há tempos não sorria desta maneira, querer passar aos outros aquilo que sinto sem ter de pensar que quero isto, é simplesmente uma vontade automática que não exige pensamento, é amor.

       Quanta ternura cabe no coração humano? Quantas lágrimas hei de derramar, e hão de pelo meu rosto resvalar, derramas até que como gotas de vida, como pequenas e imensas caiam nos ombros de amigos e amigas? Quanta aventura ha de ser vivida antes do inspirar final? Quantas paisagens hei de contemplar, com olhos enaltecidos e brilhosos? Ímpetos se proliferam de meu peito, uma força irresistível que soa e sai ora sutil ora impetuosamente em cores das mais diversas, cores da minha vida. Ora estas: tanto vivi que já posso dizer que se minha vida um quadro fosse já haveriam certas cores, certa quantidade de variedade relativa, que quem a este quadro vislumbrasse teria certa afeição e um interesse nos detalhes que lhe traria uma felicidade desconhecida, a felicidade de me conhecer. Rujam os tambores para aclamar a verdade que expus!

 Beethoven:

-             Venham todos conhecer! Eu saliento: venham antes que seja tarde, pois os últimos tempos estão próximos e os tempos próximos serão os últimos a se perpetuar

-             Ora estas homem, deixe de besteiras, parece mais que estás a perder teu tempo, veja lá o que vai dizer, caso contrário... Há é melhor ficar calado, não diga nada.

-             Miserável! Quê pensas tu? Porque trabalhas? porque faze tanto alarde em torno de nada? Cala-te e vai!

-             Ora estas seu paspalhão, vamos ver aqui quem têm a razão, certo dia estava eu num lugar ermo e fui acometido de tal vertigem que no chão caí, tudo pareceu acabar, até meu corpo não mais senti. Muitos pareciam gritar noutro momento não percebi mais o tempo passar...

-             E então?

-             Homem de Deus, falo do sofrimento que nos atazana dia e noite, se não olhares o seus olhos nunca perceberá que é que digo, ele sempre ali está, eu corro com ele desesperado, como quem está a lutar pela sobrevivência, é assim que vivo.

-             Não é certo exagero?

-             Não, a própria vida é um exagero, tudo é imponente, basta que assim vejamos.

      Após esta conversação um silêncio profundo tomou o lugar, a impressão era que uma tempestade era eminente, e nuvens pesadas cobriram o céu sem sequer um ruído, é, um vento fazia alarido numas árvores e nas janelas da casa, mas a impressão de silêncio era de tal forma dominante que os presentes não se apercebiam das peripécias dos espíritos que com o vento brincavam. Brincavam? Mais pareciam gemer num lamento triste, constante, monótono e pesaroso. Todos de maneira  corriqueira e costumeira daquela casa foram à cozinha, pois já era hora da janta, e a grande família sempre se reunia naquele horário, naquele lugar. O fogão crepitava fagulhas e ali mesmo uma criança se prontificou com uma vareta e o fogo brincar, ninguém com ela implicou, mas sim um pouco podou, para que não se queimasse. Tanto o tempo passou que comendo todos se saciaram, anunciaram que as festas haveriam de chegar pois era páscoa e uma grande comemoração iriam montar, a maior festa de todas, a maior que se podia imaginar, que se podia com muita vontade montar. Era isto! No dia preciso todos dançaram insaciavelmente, a matrona mandou fazer petiscos e comidas das mais diversas, todos sorriam entre si desejando-se bem, querendo bem uns aos outros. Aquela tempestade? Aquelas nuvens? Não houve chuva sequer uma gota, sim houve certo momento que choveu no salão, onde diversos grupos de cavaleiros e damas dançavam chuvas de confetes e champanhe, para todavia mais comemorar. O dia da festa foi o dia de intensa chama no coração de todos! Não é este o objetivo da vida? Perpassar as idiotices, bestialidades e burrices do mundo para encontrar o aconchego no amor? Não é esta a grande festa? Querer aos outros um bem e estima infinito, e isto exprimir por sorrisos?

26 - A intuição

 

Vigésimo sexto conto: A intuição

 

      Caminhando por uma praia certa vez eu encontrei cinco grãos de areia. É verdade, acreditem em min. Logo vejo que perceberam o quão perceptivo eu sou, não, não perceptivo, mas intuitivo pois de fato intuí que estes grãos estivessem sob meus próprios pés. Que sorte do destino, vejam só: eu lá andando, e eles sempre ali, só fui me dar conte depois de certo tempo de caminhada, por causa da intuição, retornei então todo o trajeto com os mínimos cuidados para calcular com exatidão onde estava quando cheguei à praia. O que não esperava é que minhas pegadas tivessem sido apagadas pelas ondas, malditas ondas, esta foi minha reação inicial. Quando iria eu achar aqueles cinco grãos de areia novamente? Fato surpreendente foi que eu achei, creio que por acaso ou mesmo sorte do destino. Os leitores devem muito estranhar o fato de procurar alguns meros grãos, mas estes eram especiais.

     Por quê? Cada grão representava um planeta diferente, planetas sem nome, cada qual ainda tinha em si bilhões de habitantes. Fiquei aterrado, verdadeiramente preocupado quando lembrei-me que ao passar poderia haver não intencionalmente ter pisado em um dos grãos, quer dizer, um dos planetas, e ser um assassino de bilhões de seres. Deveria dizer seres extra-terrestres? Não, definitivamente não, eles vivem por aqui, e devem por isto ser considerados terrestres, mas vivem em outro planeta, digamos um outro planeta que está no nosso planeta, conectado, engajado.

      Peguei os cinco grãos na mão com um cuidado extremo, atenção redobrada, não consegui enxergar uma diferença que fosse gritante, ou que indicasse diferença em relação com qualquer dos outros grãos. Fiquei nervoso, pois minha intuição não indicara assim e decidi, emergencialmente leva-los ao microscópio, chegando ao laboratório coloquei os grãos sobre a mesa e fui tomar um café, quando retornei eles não estavam mais lá. Foi de notória surpresa quando lembrei-me que por minha falta de atenção ou um descuido bastante grande havia confundido os grãos planetas com grãos de açúcar, e os havia posto não intencionalmente na xícara, que aterradoramente se encontrava plena daquele líquido obscuro, terrívelmente quente e até pestilento na perspectiva de um indivíduo que fosse adentrar-se num ambiente destes, sim seria hostil.

      Com velocidade espantosa despejei todo o conteúdo da xícara numa toalha, antes de causar queimaduras das mais graves nos planetas, notei que muita açúcar se misturara com os grãos, de modo que ficara difícil distinguir qual era um e qual era outro, não há outro meio de saber senão colocando um por um na boca, se não se desfizesse por certo seria areia. Foi isto então que fiz, com perícia e minuciosidade que até então desconhecia.

      Transcorrido grande intervalo de tempo consegui separar os cinco planetas, e os pus no microscópio, desta vez até desisti de tomar café, aliás fiquei extremamente arrependido de  ter tido esta idéia, pois poderia de maneira avassaladora dizimar miríades de seres em uma atitude aparentemente simples e banal. Estando sob a vista das lentes do microscópio pude analisar melhor aqueles diferentes mundos, foi de muita desventura quando notei sua similaridade com grãos de areia comuns. Teria eu, não intencionalmente, pegado os grãos de areia errados da praia? Seriam grãos de açúcar que não derretiam? Minha mente fervilhava de dúvidas e cogitações das mais diversas.

      No outro dia retornei ao mesmo lugar da praia, preocupadíssimo com a possibilidade de alguém haver massacrado os cinco planetas originais. Estando já no mesmo lugar olhei bem para o chão e prestei atenção à todos os detalhes da areia, percebi logo que haviam uns grãos que eram relativamente maiores que outros, alguns também tinham uma certa transparência, e outros ainda que julgava numa primeira instância serem grãos eram na verdade pequenos pedaços de conchas. Dentre esta vasta gama de variedades encontrei três esferas de tamanho igual que um grão, mas de formato totalmente esférico. Claro! Estes deveriam ser estes os verdadeiros. Pretenciosamente coloquei-os no bolso e retornei ao local base de minhas investigações: o laboratório. Após as verificações iniciais constatei ter anteriormente me enganado de maneira crassa, como pudera eu haver cometido um erro destas proporções? Pegar os grãos errados? Bem... então o que se passou foi fenomenal, sem igual, desta vez nem cogitei tomar o café e fui direto ao assunto, os pus no microscópio, quando focalizei os planetas notei que cada qual era de uma tonalidade avermelhada bastante vivaz, quase como se emitissem luz por si mesmo. Aí fiquei observando por meia hora, o que acabou por se prolongar por duas ou três horas, foi quando me cansei e fui tomar um café, desta vez entretanto intencionalmente coloquei os cinco planetas dentro da xícara de café e tomei o café por completo, sem medo nem piedade, até queimei a garganta, de tal forma degluti aquela bebida que antes nunca me notara tão afoito e desesperado por tomar um café.  Óbviamente enguli os planetas junto, sim, já estava farto de toda esta história, cansado e exausto de intuições fui viver o dia.

25 - As muitas vestimentas do imperador Gasildo

 

Vigésimo quinto conto: As muitas vestimentas do imperador Gasildo

 

      O imperador de Gasildo teve certa vez a intenção de melhorar sua aparência, para que nas festas de seu palácio pudesse ter boa fama. Seus súditos então não paravam de dar-lhe sugestões das mais diversas, após algumas semanas sua aparência já era totalmente diferente, tão diferente que se alguém que antes o conhecesse não soubesse da mudança, de fato, não o reconheceria.

      Na história da humanidade a aparência sempre representou uma característica preponderante na aquisição de poder, honra, glória e até boa índole. Não precisamos nos abismar com esta informação, já que a visão é dos sentidos a principal fonte de percepção da realidade, assim, todos os seres humanos têm um fraco de deixar-se impressionar pelas aparências. Iverossivelmente é correto dizer que quem vê cara não vê coração, seria precipitação julgar um livro pela capa, não quero dizer com isto que o rei esteja errado em vislumbrar-se diante do espelho diariamente como um pavão abobalhado, mas que existe a possibilidade de que sejam distoantes alma e matéria.

      Gasildo confabulava certa feita com uma fada, pois tinha manias diversas, num pitoresco e exclusivo linguajar conversava com fadas, gnomos e houveram ocasiões, segundo as bocas mais ruidosas do palácio, em que Gasildo travara longos embates com gigantes de pedra. Seu dialeto tratava-se de um emaranhado confuso de termos, que em momentos específicos se transformavam em cânticos, como também podiam estar num termo tão antagônico ideológicamente que acabavam por perder qualquer possibilidade de nexo ou sentido.

     Esta fada, cujo nome era Vrina lhe concedia dicas e opiniões das mais diversas, no entanto neste dia bastou somente uma sessão de risos para que Gasildo percebesse, de maneira prodigiosa e perspicaz que algo estava errado: Seria com ele? Com ela? Com o mundo? Ou estaria ela desembestadamente louca?

-             Há! Há! Há! Vejo o que te fizeram estes palhaços do palácio, mais parece um bando de desnorteados que nunca vi igual, realmente meu rei, tu, portador de inteligência sem igual, não vistes como estás?

-             Como estou? Ora estas Vrina, estas fazendo picuinha de min? Não disponho de tempo para coisas fúteis como tuas banalidades, e pensar que tú sempre foste a melhor companhia que pudesse um humano ter...

-             Não te iludas, pois percrusta sendas enganosas, o que querem é te devorar, fazer com que pareças um polichinelo, para depois, somente depois te difamarem em público. É melhor que te preocupes com outras coisas que propriamente com tua aparência.

-             Desde o dia que julguei oportuno melhorar estas roupas me sinto de fato um tanto estranho, não conte à ninguém, pois este é segredo que ninguém sabe, estou contra minha vontade.

-             O quê?

-             Me desiludi já , nem precisas tu de largas explanações para me convencer que esta farsa é ilusória. – Quando o rei diz esta farsa aponta suas vestes, que mais pareciam de um palhaço. Extremamente abatido deixa seus aposentos e vai em direção ao grande salão do castelo, em busca de qualquer distração.

      Em verdade, aquele dia foi importante, pois deu uma esperança ao rei, que se deixava entristecer profundamente pela maneira como se deixava influenciar por opiniões dos outros. O dilema se prolongou por mais duas semanas, até que num belo dia, logo pela manhã sem se aperceber apareceram dois gnomos ao seu lado, um deles tinha um chapéu vermelho o outro verde.

-             É este o homem?

-             Sim acho que sim, pela cara de pasmado e um certo ar distante nota-se que parece tristonho.

-             Pelos Deuses! Quem ou o quê são vocês? Quê chapéus horríveis, até parecem bruxos ou feiticeiros.

-             Somos Gnomos.

-             Há sim, Gnomos... E quê querem comigo? Já não basta minha tristeza, esta que me acompanha dia a dia juntamente com meus dilemas.

-             Claro, claro... Compreendemos. – Disse um dos gnomos colocando uma das pequeninas mãos no cotovelo, e com a outra o queixo, transmitindo uma expressão de sabedoria e agilidade intelectual. – O que queremos é saber com quê raios de gente estás andando, pois teus trajes mais parecem orelhas de coelho gigantescas, com estribos de cavalo estragados que propriamente roupa, aconselhamos urgentemente que troque isto aí, aliás nunca vi um rei vestir-se de maneira tão inusitada e até desfavorável à sua boa reputação.

-             Põe em dúvida minha reputação? Acaso não valorizas tua própria vida?

-             De princípio convém dizer que sou, como meu colega, um ser evanescente, feito de ectoplasma, portanto não nos submetemos às mesmas leis que regem o mundo dos homens, não julgues que podes matar um gnomo. Quanto ao caso que está em pauta é bom dizer logo que o conselho é trajar-se bem, pois sabe-se que mesmo que o espírito seja nobre e sincero temos de convir que os olhos são a ferramenta mais potentente do homem.

-             E quê relação põe dos olhos com minha reputação?

-             O que os olhos não vêem o coração não sente, o senhor deve trajar-se segundo nossas recomendações, do contrário poderás até, em último caso, perder o poder.

     Estas últimas palavras foram suficientes para deixar Gasildo aterrado, não imaginava que suas atitudes pudessem ter resultantes drásticas como estas, deste modo decidiu seguir os conselhos daqueles guinomos, que naquele momento lhe pareceram esbeltos e explendorosos. Foi com grande honra que adotou ao pé da letra tudo o que lhe fora citado à respeito de como vestir-se adequadamente.

      Para a surpresa de todos, numa das muitas festas concedidas pelos nobres das circunstâncias ocorreu que o rei portava um longo chapéu, uma camisa xadrez e botas de couro, em seu cinturão haviam muitas sacolinhas, que segundo ele eram pós mágicos e poções, cada qual com uma função específica. Foi uma zoeira tremenda, todos riram do rei, muitos não  tiveram sequer a preocupação de disfarçar, fato que custou-lhes a própria vida.

      Não tardou muito para que o rei se apercebesse que havia cometido grande erro, pois mesmo que aquelas roupas fossem adequadas não eram aconselháveis para todas as ocasiões, concluiu disto que a roupa em si não era fator importante para o bom sucesso e poder, mas sim adequação aos diferentes grupos e modalidades culturais. Não obstante esta conclusão foi tão tardia quando inútil, pois a fama do rei passou a ser de louco varrido e pessoa com falta de personalidade, o que segundo minha opinião não ha base sólida nestas falácias pois o rei buscava em si um valor que lhe tornasse mais famoso, não sabia porém que é a alma quem cresce e domina o mundo e não qualquer destas mesquinharias que são as aparências.

24 - Suspiro de desespero

 

Vigésimo quarto conto:  Suspiro de desespero

 

       Onde estão? Onde estão? Estou desesperado, pois tenho dúvidas infindáveis, que me causam amarguras, dissabores, infelicidade e desventuras. Oh! Quão enganosos são meus passos, quão perdido estou. Quê será de min? Por este caminho vamos, o caminho das possibilidades, nada é certo, a segurança é apenas uma sensação criada pela mente humana. Haverá um dia, uma vontade que tenha um fundamento verdadeiramente sólido? Uma pretensão totalmente justificável? Terá o ser humano este privilégio? O privilégio da sabedoria...

      Onde estão? Onde estão? Onde estão as verdades de minha vida? Onde estão os motivos nos quais me agarrei com mãos que de tanta força que fizeram entraram em espasmos violentos, minhas unhas encravadas naquele solo que antes julgava fértil, de tão encravadas tão profundamente naquela terra  em que acreditava haverem sementes das mais diversas criaram fissuras das quais muito sangue escorreu, manchando minha vontade de um enfraquecimento descabido.

       Não posso me conter, a verdade que busco é muito maior que aquela que consigo encontrar. Por isto os tormentos da alma são muitos, por isto me desespero. Pudesse eu encontrar aquela verdade, que encontrando-a no momento de minha morte, num leito obscuro e distante de tudo muito me alegraria, sim, em ir-me já tendo encontrado a verdade, de terminar o que foi começado, não obstante é tão audaz minha imaginação que se antecipa à realidade, à verdade. Assim que jamais comecei eu alguma coisa sequer, pois tudo o que começo é infundado, por isto não o é. Qual é então? Qual é a única verdade que nos faz viver senão a própria vontade? Nada existe de palpável na natureza do mundo senão a vontade humana, o resto são ilusões criadas por mentes ávidas de uma vida, que na verdade sempre foi infundamentada, sempre foi lúdica. O mundo é lúdico! Tudo senão a vontade, esta coisa que vêm antes de tudo, este princípio, é vã ilusão é criação da imaginação.

      Onde está? Onde está? Onde está a verdade  à qual devo correr como uma criança à mãe? Onde se incrusta a verdade da minha vida? Onde se localiza esta suposição que ainda não existirá enquanto minha vontade não fazer andar o trem da imaginação? Onde? Podereis vós responder?

23 - O amor de todos os tempos!

 

Vigésimo terceiro conto: O amor de todos os tempos!

 

      Os clamores das cornetas celestiais anunciavam: era o momento da chegada, sim a paz derradeira por fim estaria presente. Os espíritos dos reis de todas as dinastias e períodos do mundo se levantaram de seus túmulos para receber dos céus a luz divina. Um mistério impenetrável havia ainda: de tantos reis, qual seria aquele que ficaria com a coroa doada pelas mais requintadas potestades?

      Assim certo temor anuviou os pensamentos dos que ainda estavam vivos, e dos reis que levantavam-se de suas tumbas, bastante melancolia soava no ar, como longínqua música, todos deixavam-se invadir por esta sensação que a pesar de guardar grandes segredos em si proporcionava certo descanso ao coração.

      Foram em cavernas das profundidades mais longínquas da terra que notaram-se mudanças, pois lá, onde somente prevalecia obscuridade e medo surgiu uma luz bastante forte, consoladora e terna a luz inundou muitas câmaras dos abismos terrestre, deixando mostrar seres mágicos e mitológicos que até então eram vivos apenas na imaginação humana.

       No mundo dos homens houveram muitas festas, mas nenhuma se igualou em esplendor à esta que agora se fazia presente, pois a luz foi tão intensa e bela que os muitos que se deixaram extasiar decidiram muito festejar. Era uma dádiva, talvez os tempos finais, pois  um amor fraterno permeou todos os corações dos homens. Uma festa séria, a festa que os céus tanto haviam esperado para trazer aos homens.

      Após muito festejarem, os homens pararam a escutar que viria depois. Um silêncio como jamais havia-se sentido antes vigorou por tempo indeterminado, até que finalmente as refulgências celestes baixassem à morada terrena, ali nas nuvens começaram-se a ver formas distintas, com muita claridade, anjos de diversos tamanhos e tipos de asas descendo, os mitos e deuses das profundezas da terra saíram de suas tocas, a buscar a redenção.

     Foi então que o silêncio permeava-se de ruídos misteriosos, poderiam ser almas ainda não redimidas, ou ruídos trazidos de tempos remotos, avivados por lembranças tormentosas. Isto porém não durou muito, pois dos céus e do centro da terra vieram as palavras finais: -  Todos serão libertos de seus receios, sua amarguras e tormentos serão apenas passado, o presente será de Bem Aventuraça, venham reis e plebeus à min, venham mitos e deuses à min, venham anjos e potestades à min. Chegou a hora: seremos todos um só, assim como no início será o final, e será o novo inicio, como assim se passa na infinidade do tempo.

-             Não, eu não quero ir! – Disse uma alma arredia, relutantemente enquanto batia com os pés no chão enraivecida com seu destino

-             Como não quer ir? Quêm ousas me contrariar? – Disse impetuosamente Deus, com uma voz incisiva, que não podia ao certo perceber de onde provinha: se da própria consciência ou local externo, a pergunta fora tão arrebatadora que aquela alma estando antes resoluta e firme em seu intuito balbuciou alguma coisa ininteligível e logo disse cautelosamente.

-             Não... Sabe o que é? É que... que eu achei que o final dos tempos seria diferente. – Falou aquela alma, tentando ser um pouco mais simpática, não pretendendo sinceramente criar quaisquer atritos ou aborrecimentos eventuais à Deus.

-             Diferente? Como assim? – Perguntou a voz trovejante, bastante curiosa pela audácia daquele ser ínfimo e petulante.

-             Ha! Sabe como é que é, né Deus, a gente vive, vive e no final tudo tem que acabar e começar de novo, interminavelmente? Isto é absolutamente patético! Err... Quer dizer, creio que seja um tanto estranho ou inesperado.

-             Você é uma alma um tanto inoportuna, pos parece haver contrariado todas as regras que até então estabelecí, vejas tú como todos vêm à min como criancinhas boazinhas, at

-             é aqueles que não prestaram muito vem aqui comigo ter, mas você. Quê raios de loucura te assola?

-             Nenhuma, é que parei, refleti e concluí que não vale a pena começar tudo de novo, com todo o respeito, o senhor deveria fazer estas leis um pouco diferentes, algo um pouco mais “light” sabe?

-             “Light”? Quê quer dizer isto?

-             Sutil, suave, ameno, delicado, sensível ou aprazivo. Algo em que pudéssemos nós mortais nos embaldar duma alegria soberba.

-             Não! Não! Isto não, pois a soberba é extremamente pecaminosa, gostei deste negócio de “light”mesmo a pesar de não ter sido uma criação prorpiamente minha, seria uma criação da criação. No entanto erra muito quando diz querer ser um soberbo, como queres tu isto, ser repelente, se tampouco isto possuem os reis de teu mundo?

-             Me precipitei, eu quis dizer elegante.

-             Aqui está sua elegância – Ouviu-se um som de estalir de dedos e subitamente aquela alma, que já trajava alguns farrapos carcomidos por vermes que por centenares de anos perpassaram aquele corpo em trajetos dos mais variados, fazendo retalhos dos mais variados, aquela alma subitamente viu-se num belíssimo “smoking” como nos tempos da juventude.

-             Aí está tua elegância, mas agora venha que já é hora, depois do final tenha muito trabalho a fazer, pois como vê novamente irei iniciar o mundo.

-             E nós?

-             Nós quem? Filho arredio...

-             Nós eu.

-             Nós eu? Não há nexo nestas tuas palavras, venha logo e acabarei de uma vez por todas com isso.

-             Não vês, tu que és o Deus, que são as súplicas  que saem como sangue de min?

-             Bem, já que tu tanto insiste, e como minha imparcialidade hoje não está lá muito convicta de si, aliás não sou mais o de antigamente, é: na época de Moises sempre fui bastante imperioso, a humanidade tanto me transformou que tratei de mudar minha postura, hoje meus braças estão abertos até se for o caso para trocar uma lei ou outra. Não dizem por aí que o meio faz o homem? Pois veja você, que o meio foi tão influente que até à Deus fez. Não vou no entanto falar muito à você de detalhes supérfluos, pois sou Deus, e tenho de uma maneira ou outra de demonstrar certa imponência, ao menos para deixar uma boa impressão, sabe?

-             Claro, claro, senhor Deus: tu és o pai e a mãe do universo, sem ti o nada ainda seria nada, e sem ti nem tu serias algo pois é evidente que criaste a ti mesmo.

-             Muito te enganas tu mortal, em verdade, em verdade vos digo: Foi o nada que me criou, e não eu que criei a min mesmo.

-             Mas que diferença isto faz?

-             Muita! O nada têm o poder inicial, a alavanca de partida do universo, é por isto que quando tudo chega ao seu devido final tenho de reduzir a nada novamente, para que seja criado uma vez mais.

-             Que coisa estranha, parece não fazer muito sentido...

-             Há coisas que não têm mesmo sentido, meu filho – Disse Deus ternamente – E temos de nos contentar com isto, vejas tu, que até eu, sendo o Deus único e poderoso do universo, tendo tudo o que quero aos meus pés, não interpretes ao pé da letra, quero dizer pés metaforicamente, pois além de tudo sou abstrato e imaterial, logo condui-se que não tenho pés. Pois então: mesmo eu, ainda não descobri ao certo o sentido da vida.

-             Ai meu Deus! – Falou o espírito rebelde, aterrado pelo que ouvia de Deus, seria o mesmo Deus que ele tanto imaginara enquanto vivo? Logo pôs-se a pensar o quão ignorante era aquele Deus, entretanto como Deus tudo sabe, e dele não se podem ocultar segredos senão aqueles que não se sabe, Deus leu os impropérios que à ele eram dirigidos em pensamento como se estivessem sendo recitados em som alto e claro.

-             Quê dizes de min? Burro e pateta? Mas quê espécie de palerma eres tu ó criatura ínfima e pequena?

-             Não penses isto de min ó querido e amável Deus... – Desconversou o espírito, que argutamente apercebera-se da ocorrência inesperada. – Eu estava justamente pensando sobre um outro Deus...

-             Se é assim, não há quaisquer motivos para reencarnar-te como uma lesma ou lama.

-             Dalai Lama?

-             Não, lama de terra molhada.

-             Que desagradável, eu ficaria logo resfriado!

-             Sim, possivelmente! – Falou Deus convicto de sua vitória, quando na verdade estava sendo ludibriado, pois o outro inventara o suposto “outro Deus” quando apercebera-se de sua crítica situação diante do Criador.

-             Bem já se faz tarde, eu devo ir indo...

-             Indo não! Vindo! Veja ao seu redor.

-             Não há nada ao meu redor, só um branco infinito, uma luz monótona e linear que se faz presente em todos os lugares. Quê luz é esta?

-             Sou eu!

-             Estou em você.

-             Ora estas, é claro que sim! Não somente estás em min como és parte de min, pois eu sou minha própria criação.

-             Quê acontecerá agora? Tenho certo receio de perder à min mesmo...

-             Não te apavores, irá ocorrer tudo o que já ocorreu até agora: da vida se fará mais vida, da luz se fará mais luz, do homem se farão mais homens, e do amor se farão todos os tempos.

22 - O sonho de todo artista

 

Vigésimo segundo: O sonho de todo artista.

 

      As cores se mesclaram numa bela e fulgurosa imagem, como sinos que soassem com duas notas elas se misturaram formando um todo harmonioso. O pintor certamente era um doido varrido, sim: uns olhos arregaçados, babando por vezes sem saber, cérebro fervilhando, sempre ocupado com mil e uma imaginações, indagassões que o perseguiam e assaltavam, assim de súbito sem pedir licença. Era como se vozes diversas, todas de maneira desorganizada e precipitada falassem-lhe ao cérebro. Um louco do mundo, que colocava nas cores aquelo que há muito já era a mais viva verdade de sua alma, extraía dos sentimentos mais escondidos, dos detalhes mais profundos a essência, e ali pincelava, numa tela, que antes em branco agora de beleza indescritível. Sua mente borbulhava em reflexões diversas, as dúvidas existenciais acalentavam um lugar específico: seu coração, as muitas vozes falavam em devaneios diversos, com nexo e desenvolvimento dialético, quebrando estas regras em algumas ocasiões. Tudo o que era sentido e pensado era pintado:

Qual é a tua verdade?

Não tenho verdade, sigo andando...

Mas quem raio eres? Queres perder-te no abismo da vida? Estás insano?

Absolutamente não, ninguém pode dizer uma bobagem assim.

Assim como o que?

Que alguém têm uma verdade

Infâmia, somente isto, estás fora da normalidade...

Infâmia é perguntar à alguém qual é seu caminho, pois assim supõem-se um caminho existente, quando na verdade todos os caminhos são em potencial flores, que se abrem conforme o que se quer. Pus uma prerrogativa, pois para caminhar há de querer, a vontade é no ser humano o que lhe dá o acontecimento, que no fundo não passa de uma interpretação, uma interpretação ora escassa ora vivaz, à isto se resume a vida, pois se tudo podemos fazer, dependendo somente de escolhas e vontade é certo dizer que somos tudo em potencial, se posso ser tudo é o mesmo que não ser algo somente por não ter feito aquela escolha. Assim está posto o teatro da vida.

Não digas asneiras! Até parece que alguém poderia entender teus pensamentos.

Estes pensamentos não são meus!

Não? – Este não foi proferido em têm absurdamente irônico, de modo que surtiu certo enfado por parte do pintor. – Quer dizer que não és tú o difusor de tais atrocidades intelectuais? Então que raios de ser poderia, se enredar em terrenos tão obtuzos, confusos senão até fétidos?

Não exageres, pois tuas palavras me chegam em tom ofensivo, explicar-me-ei adequadamente, para que não restem dúvidas: Minhas palavras são fruto de idéias intuitivas, por isto não são exatamente minhas.

Está certo, queres então dizer que a intuição é um evento que se localiza fora e não dentro das pessoas, e assim não pertencem à elas propriamente ditas?

Bastante perspicaz da sua parte.

Como ousas fazer “picuinhas”de minha pessoa?

Não eres sequer pessoa, e sim pensamento como eu.

Bem, é verdade, talvez tenha eu me precipitado um pouco, mas o fato é que fizeste mal caso de minhas idéias, crendo-me um asno ou sonso... E isto não agrada a ninguém.

Claro, claro, minhas desculpas.

Isto só não basta para alegrar-me.

Mas que então fartará a tua felicidade, se sempre estás à contrariar minhas idéias?

Nada, nunca estarei satisfeito, aliás, sou como um saco sem fundos, quanto mais coisas me dizes menos colocarei fé naquilo que é dito.

Isto é, absolutamente, um verdadeiro opróbio! Ou... Quem será o insano?

Não venhas tú novamente com teus desaforos, o fato é perfeitamente explicável: vejas tu que acaso temos: no pensamento haverão lutas perpétuas na busca de um consenso absoluto de realidade, consenso este que jamais será atingido, pois o sujeito que busca entender a realidade está em constante transformação. Assim, passa-se que o pensamento dialético digladia-se infinitamente na busca da verdade.

E onde está esta verdade?

Qual verdade?

Ora, a verdade do mundo.

Não está nos teus bolsos?

Deixa eu ver. – Breve instante de silencia mental -  Não, não está.

E no outro?

Deixa eu ver. – Outra pausa no pensamento – Também não.

Condúi-se daí que não está com você, se não tens a verdade ela está fora de tí

No mundo?

Bem, se você imaginar que a verdade do mundo, como diz o nome é pertencente ao mundo é esta a resposta, mas julgo que sejas um tanto tola esta sua colocação, pois não busca a verdade do mundo senão a verdade da realidade.

Humm?

Falo com uma criança de quantos meses? – Muitas risadas e gargalhadas, pois o pensamento não pode se conter – A realidade é algo mais abrangente que o mundo, e que o próprio universo, pois constitui a divagação de sensos perceptivos diferenciados do que é conhecido.

Neste âmbito posso concordar, e proponho um desafio. – Disse, mesmo sem entender, mas fazendo-se de esperto, justamente para não deixar muito tempo para descobrir-se sua total ignorância no que fora dito

Alegro-me finalmente, um desafio me parece algo instigante.

Disse antes nunca alegrar-se ou algo similar...

Err... Força de expressão, na verdade nem me alegrei muito, fiquei digamos: um pouco extasiado

Compreensível.

E o desafio?

Que desafio?

Ora bolas... Aquele que acabaste de dizer que irias propor.

A sim, quase me havia esquecido: Um grande coelho de bronze, sim, tão grande deixando grandes edifícios pequenos, uma bela escultura, na qual estão muitas corujas soturnas prostradas, numa noite gélida e escura, notam-se apenas os centenares olhos de cá para lá, vigiando todos os cantos de uma praça. Decifra?

Me parece um tanto banal esta sua colocação, certamente julgaste algo me entreter com tuas histórias estapafúrdias?

Não estou aqui para entreter, senão para desafiar.

Sei disto, fiz esta jogada a ver se percebias meu blefe.

Não pasmes diante da dificuldade, apenas digas tua interpretação.

Há! Então era para interpretas?

Supostamente.

Nas cidades de hoje me parece faltar um punhado de arte, por isto está o coelho gigante, que simboliza um animal bastante gracioso, o que traz certa infantilidade na conotação geral de teu enigma. assim deve ser a vida: tendo arte e alegria.

E as corujas? Acaso olvidaste?

Não, por suposto que não amigo meu.

Acaso temos nós toda esta intimidade?

Não somos pensamentos do mesmo cérebro?

Somos, somos sim, mas isto não quer dizer que estejamos assim tão afeitos, por favor, eu lhe peço gentilmente: mantenhas certa distância, para que apenas confabulemos aprazivamente.

A última coisa que pudera eu pensar é criar atrito, atrito jamais, mas sim contravenções e contraposições, se assim não fosse estaria morto o próprio ato de pensar.

Bem, que assim seja, responda agora o resto do enigma. – Falou, ou pensou? O pensamento com impetuosidade.

Bem, as corujas, s corujas... São... Sim: As corujas são seres noturnos, e representam a magia e beleza noturna, compondo com a estátua e a noite uma imagem tétrica e pitoresca, inesquecível, veja que este é um animal majestosamente trajado, não deixando de concorrer com os gatos mais belos que possam existir, seus olhos estão acesos porque olha à noite.

Algo mais?

Não. Isto só já não basta?

Claro, tenhamos bom senso, tuas ponderações atingiram interessante patamar de discussão, ainda que não tenhas divagado sobre vêem os olhos.

Mas isto é evidente. Oras...

Não tão evidente quanto parece.

É sim

Não, não é! Os olhos não vêem a cidade que se depara diante de si, senão o universo por completo, com estrelas, nebulosas iridescentes, sóis incandescentes e galáxias por completo. Isto é o que vêem os olhos das corujas, com todo seu esplendor e poder.

Absolutamente, esta parte não pude concluir.

Há coisas que não possuem lógica coerente, ainda que assim seja elas se efetivam e se fazem presentes.

     Exausto, após finalizá-la,  o artista fica extático diante de sua obra. Embasbacado por sua criação haver fugido em tamanha proporção de suas intenções e talvez até de seus consentimentos. A ilusão de todo artista é por certo criar algo que seja maior que si mesmo, usufruir de inspirações profundas e fugazes, cantar ao sons de sinos, com notas que se mesclam em sinfonias inimagináveis. Voar num mundo de cores da aquarela que se tornam tão vivas que com ele e com seus pensamentos movimentam-se numa infinita ciranda da aquarela. O sonho de todo artista é voar com sua arte a céus desconhecidos, ver estrelas, galáxias, luas, corujas, estátuas, mares até então desconhecidos, para que depois em tudo isto, tendo usado sua vontade de criar e haver seguido o caminho da criação deleite na margem de seu coração as lágrimas de mares já nadados, de obras já realizadas.

21 - A visão de Izaquiel o bêbado

 

Vigésimo primeiro conto: A visão de Izaquiel, o bêbedo

 

-             Sentimentos fraternos, a paz derradeira irá provir de um mártir, eu vejo, eu vejo... Está escrito na face do destino, não há modos de apagar. – Disse um bêbado chamado Izaquiel na rua enquanto era assaltado por um visão angelical de dois arcanjos celestes que traziam um uma harpa que ressoava majestosamente em suas mãos, o outro uma trombeta de sonoridade extasiante.

-             Quê dizes homem? Acaso estás tão desnorteado que não tens conciência de tua situação? – Disse Marcondes abismado com as palavras extraordinarias de seu comparça,Marcondes era um homem gordo e atarracado, quase sempre vestido com um paletó verde e uma camisa beje, o que lhe conferia uma harmonia destoante de cores antagonistas, neste momento inusitadamente estava em plena sobriedade, costumeiramente acompanhava Izaquiel em muitas de suas aventuras, assim como era Sancho Pança para Don Quixote de la Mancha.

-             Não falo de min, falo da verdade, pois já há muito não me preocupo comigo, o que me importa? Não me deixaram nada, por isto só me preocupo com os outros, com a verdade do mundo. – Proferiu Izaquiel, apontando com mesma mão com a qual segurava a garrafa à um dos cantos da rua, como se a verdade do mundo estivesse ali mesmo e fosse tão palpável quanto a garrafa,

-             Vai dormir, já se faz tarde. – Costumeiramente, isto era o que Sancho, quer dizer, Marcondes sempre dizia quando queria indicar que o outro soltava demasiadas asneiras e devia calar-se o quanto antes.

-             Dormir? Não, não posso ir dormir, o mundo precisa de min, pois é chegado o momento em que impávidas andorinhas marcharão rumo ao infinito, todos os animais irão junto e até as águas do mundo evaporarão para sempre.

-             E quê dia será este? homem de Deus... O dia em que parar de beber? – Disse o outro com sarcásticas gargalhadas, lembrando-se neste exato momento as tantas garrafas esvaziadas naquela mesma noite.

-             Está próximo. Vejo a face do destino. – Izaquiel, ao mesmo tempo em que caminhava olhava para o lado, com uma feição estática de dar pavor a qualquer pessoa normal, Marcondes só não se apavorava porque não era uma pessoa normal. Suas pupilas estavam tão fixas que a figura de Izaquiel, quando contemplada parecia mais uma foto que propriamente realidade em movimento. Suas visões eram cada vez mais abrangentes, centenares de arcanjos desciam dos negros céus noturnos, seus olhos estáticos até então se esbugalharam, num fenômeno fantasmagórico.

-             E o destino lá é alguém para ter face? – Disse o outro “encucado”

-             Acaso não sabes o que é uma metáfora? – Explicou pacientemente o bêbedo

-             Estas coisas de previsão do tempo são besteiras que inventam, sabe-se que é impossível saber as coisas antes que aconteçam. Vês como a imaginação do homem é fértil. – Disse o Marcondes num surto explicativo automático, com os olhos fixos no chão, chutando alguns pedriscos graúdos que se deparavam em algumas fissuras oblícuas da calçada.

-             Como você é difícil Marcondes! – Reclamou obstinadamente em um tom de voz pouco mais alto e incisivo Izaquiel, crendo insuportável o fato de que o outro não lhe entendia os termos. -  Um conceito tão simples e você têm tanta dificuldade de assimilar, não posso perder tempo explicando detalhes à você.

-             Quê é então metáfora?

-             É uma força de expressão?

-             Hãn? – Perguntou Marcondes totalmente desnorteado com a explicação fornecida, que segundo seu critério pessoal ficara extremamente limitada

-             É quando alguém quer dizer uma coisa, só que fala outra no lugar para facilitar o entendimento.

-             Claro, claro... Algo tão simples... Como não pudera eu imaginar isto antes?

-             É questão de sabedoria.

      Alguns tropeções depois e muitas palestras deste mesmo caráter chegaram os dois à um termo único, onde o mundo um dia acabaria, e que todos deveriam se preparar para este dia, em que os anjos e arcanjos desceriam em múltiplas falanges do céu, como numa orquestra de harmonia e melodia de indescritível belezas. Este seria o dia do juízo final, onde os justos seriam congratulados com bebidas às favas e os injustos castigados impiedosamente.  Não haviam modos de apagar: a face do destino já estava escrita, a justiça seria o porvir da humanidade, a paz derradeira viria aos bons de coração enquanto os maldosos receberiam o tormento de suas próprias injúrias. Este não só estava próximo como já havia chegado, pois Izaquiel via que os anjos, naquela imensa orquestra o levavam embora, ao céu. E tendo ele na terra esperado seu quinhão de felicidade, tendo recebido somente amarguras no céu teve motivos de se alegrar, não pela bebida que esperava receber às favas, nem pela companhia que impertinente continuou a mesma, mas sim pela derradeira paz que conforme proscrita se fizera verdade. Izaquiel, o infortunado era um homem de Deus.

34 - Pássaros de luz

  trigésimo quarto - Pássaro de luz Vida vida corre vida, corre para lá corre para cá e se esvai, se esvai. Engrandece cresce. O pássaro d...