Thursday, October 31, 2024

14 - Solução para dois problemas: Arte e Vida

 

DÉCIMO QUARTO CONTO - Solução para dois problemas:  Arte e vida.

 

       No que consiste a vida? Aliás: Que é a vida? Não, muito complexo, demasiado difícil não são perguntas concatenadas à serem respondidas. Devemos apenas viver! Não, não... Também não se deve dar subterfúgios escorregadios e mundanos, deveremos no mínimo dar uma desculpa pouco mais científica aos devaneios existenciais... Não me vejo obrigado à responder estas estapafúrdias perguntas, logo me sinto muito bem em continuar andando em direção à academia de musculação. Mas que vida bela! Não nos obriga a saber que é ela, posso vivê-la sem saber que é! É como se eu tivesse um carro e não soubesse que é ou para que serve, e ainda assim continuasse a dirigi-lo. Sabemos dirigir algo que não sabemos o que é? A palavra dirigir incita algo como direção, caminho, itinerário e objetivo. Chego à assombrosa conclusão de que não estou dirigindo minha vida. Caminhando nesta calçada de belos desenhos de formatos circulares olho sempre ao chão, talvez porque não ouse olhar à frente, diante da verdade do mundo que se me depara. Ainda assim, depois de tudo que pensei não sei todavia quê é a vida. Mas que merda! Meus pensamentos de nada adiantaram! Por isto perco a paciência com este cérebro ignóbil e enganoso. Fastidiado comigo mês mo continuo caminhando nesta calçada curiosamente bela, e com sorte sem trombar com qualquer poste, pessoa ou semáforo, já que concatenado não olho sequer à frente. No entanto um laivo de consciência me invade, pois logrei ao menos saber que não estou dirigindo o carro pois não sei dirigir. Isto é ao menos um caminho, um primeiro passo à realidade. Mas quê é? Quê é isto?

         Deseducado sou, pois de tão entretido com os problemas filosóficos sequer me apresentei ao leitor destes documentos, os quais deixarei postergados à um futuro desconhecidos e possivelmente vão ou apagado. Sou Marcos Paganini, não tenho qualquer habilidade com instrumentos musicais, mas ocorre que por vezes sou acometido por vrtigens filosóficas, as quais consideram como pretuberâncias nefastas de minha personalidade, com isto, dentro do possível, tento manter em segredo estes pensamentos íntimos e acusadores, pois a filosofia é acusadora, quando conturba a paz dos pensamentos estagnados, isto é perigoso! Pode causar lesões das mais diversas, irreversíveis, não se consegue curar a beleza dum pensamento mais amplo. É justamente por isso que todos a temem,  e fogem como foge o rato do gato e o gato do cachorro. Os poucos que ousaram enfrenta-la se transformaram em pessoas curiosas, em seres fantásticos e estranhos. Sim, sim: já me olharam, quando emergido em meus acometimentos, como um louco poeta, chamado de peculiar forma esvoaçante (Adjetivos que em suma não conseguiria eu unir) e até muitos já me difamaram, o que não pude interpretar como difamação, mas como uma interpretação precipitada, chamaram-me de idiota. Se sou tudo isto o que me consideram ou não, não sei. Porque não sei o que é a vida. Sou então o meu nome: Marcos Paganini.

      Com seus devaneios Marcos Paganini atingiu finalmente a porta de sua academia de musculação, professor de musculação bastante eufórico em sua peculiar maneira de levar a aula, pois tinha lá seus surtos de filosofia, quando isto ocorria alguns estranhavam repudiando o que era dito, enquanto outros achavam engraçado aprovando de uma maneira ou outra, tudo era no mínimo material para muitos comentários adjacente entre todos os convivas do local. Era um sujeito bastante musculoso, costas largas e de umas pernas inconcebívelmente fortes, e braços descomunais. Sua feição era de uma envergadura fora do comum, demonstrava experiência, mesmo apesar de sua relativa ingênua discrepância de pensamentos, o que por muitos era interpretado como dúvida, ambigüidade e até falta de personalidade. Um nariz bastante grande, comprido e pontudo. Seus dentes eram meio tortos e amarelados, o que produzia estrondoso efeito quando começava a falar de maneira desregulada, causando nos outros um mal estar de origem desconhecida. A pesar de seus vinte e sete anos sua pele morena já demonstrava sinais de desgaste, era de se admirar no entanto a reputação de loquazes palestras das quais por muitas vezes fora ele acometido nos momentos mais impróprios que se possa imaginar. Falava sobre uma gama bastante variável de assuntos: Política, religião, desportos sub-aquáticos, filosofia, guerras, música, teatro, arte em geral, arquitetura, desenho, literatura ou até mesmo sobre animais domésticos de estimação. Se era ou não um profundo entendedor destes temas não se sabe muito ao certo, é verídico no entanto sua paixão poliglota por todos eles, não obstante este era o motivo pelo qual alguns consideravam-no como louco e outros como uma pessoa de interessante conotação com a qual poderiam, certamente palestrar sobre diversos assuntos.

      Neste dia específico Marcos Paganini estava embalado numa controvérsia existencial fora do comum, ao chegar à academia procurou conter seus pensamentos, principalmente pelo motivo de que muitas vezes se flagrou-se em lugares públicos e ambientes sociais como restaurantes ou mesmo cinemas e teatros pensando alto, o que lhe proporcionara comentários de baixo calão, era tamanho seu envolvimento com as idéias que não notava o que lhe diziam os outros, sim, um homem dentro de si mesmo, abstraído da realidade, ou deveríamos dizer introduzido à realidade? Bem, isto agora não queremos saber, senão que era bastante introspectivo, mas que tentava, na medida do possível, controlar-se. Conteve-se, segurou-se e quase gritou à si mesmo: - Cale-se! Só não o fez por estar neste preciso momento dentro do corredor principal da academia. Mas não era isto que iria fazer durante o expediente? Iria calar sua liberdade e criatividade em nome da produtividade comercial? Que assim seja disse ele, pensando na mesma estrofe que acabáramos de recitar. Já estando com seu uniforme de coloração alaranjada, com bela estampa com o signo da academia na parte central e frontal de sua camisa: “Strongest People and Strongest Brain”, curiosamente este era o nome da academia, não se sabe exatamente o motivo, mas assim tinha sido definido, a insígnia era definida por um corpo masculino de proporções anormais, com a cabeça aberta e um cérebro saindo para fora de tão grande, ao lado do desenho eram ornadas as letras iniciais: “SPSB”. Ao chegar à sala Marcos Paganini se transformou no exímio professor de musculação, notando que havia uma aluna nova logo foi falar com ela neste tom:

-          Há! Então se chama Eustácia? Sim, sim... bonito nome. Claro: alongamento é bastante importante, mas deve-se fazer aquecimento com 60% da freqüência cardíaca máxima, para que depois façamos um trabalho de resistência muscular localizado que representa naturalmente de 55 à 65% da resistência de força máxima sabe?

-          Não. – Disse a mulher de maneira bastante acanhada, não sabia definitivamente daquilo.

-          Pois assim é... Depois a seqüência de exercícios intercalados por braço e perna: Cadeira extensora, pulley costas, mesa flexora, supino máquina, cadeira adutora, elevação lateral, cadeira abdutora, rosca alternada e tríceps com polia alta. Sabe?

-          Não. – Disse a mulher, que agora além de acanhada se mostrara com uma pinta de constrangimento por ser totalmente ignorante naqueles assuntos técnicos.

-          Claro Eustácia: deveremos trabalhar os músculos quadríceps femoral, grande dorsal, redondo maior, redondo menor, rombóide, infra espinhal, bíceps, semitendíneo, semimembranáceo, tríceps braquial e assim por diante numa seqüência que seja adequada. Há o fato de que dentro de cinco ou seis horas a hipertrofia adquirida é dita aguda, com um acúmulo de ácido láctico e hidrogênio, é evidente que com a inflamação haverão substâncias vasoativas. Sabe?

-          Não! Não sei! – Disse Eustácia já com as faces rosadas de tanto enfado.

-          Pois assim é. – Continuou insistentemente Paganini. – Serotonina, bradicinina e prostraglandinas. O fibrogênio também é enviado às lesões provocadas pela inflamação. E também...

-          Mas que raios o partam homem! – Interrompeu bruscamente Eustácia às margens dum louco desespero. - A mim me basta treinar! Não quero saber que acontece ou não com o corpo, aliás, nem vim à academia para isto. Não me entenda mal, por favor, não tenho paciência para aqui ficar estudando biologia ou fisiologia que seja. Aliás, desejaria sim que tudo isto se se definha, pois gosto sim das artes... – Eustácia no final de sua elucubração deixando o nervosismo de lado olhou ao longe com um vagar apaixonado pela própria palavra proferida.

-          Arte? – Perguntou Marcos com um ar de estranheza.

-          Sim professor! Quadros de arte para falar mais especificadamente, adoro isto. É uma atividade que me acompanha os momentos de lazer, também ministro um curso de artes barrocas e modernas no instituto tal e qual...

-          Mas que curioso, este é um assunto pelo qual tenho constante afeição, mas veja você o quão artísticas são as denominações das substâncias vasoativas.

-          Nisto definitivamente, mesmo querendo, não posso contrariá-lo.

-          Sim: a arte se mescla de maneira gloriosa com a ciência, basta buscarmos os recônditos em que as combinações estão escondidas.

-          Não acha esta ligação um tanto estranha, e até inexistente? – Disse Eustácia já se afeiçoando pelo caráter do professor, que demonstrara maleabilidade no assunto.

-          Não! Claro que existe, basta interpretar da maneira correta o que se veja! Não é a arte estudada pela psicologia? Não é a musculação estudada pela fisiologia? Quê é a musculação senão a formação da força de vontade, a personificação da estrondosa capacidade humana, que até então era num âmbito pessoal desconhecida, isto é a arte de viver.

-          Julga então que está vinculada a arte à fisiologia?

-          Desde sempre, olhe ao seu redor! – Disse ironicamente o professor.

-          Bem, me vejo obrigada a concordar que tudo depende de como interpretamos o que vemos, logo não é somente de fisiologia que vive a musculação...

-          Não, definitivamente não... aqui há arte, vida, teatro, literatura, filosofia e tudo mais. Basta saber interpretar!

-          Acaso não vai o senhor demasiadamente longe?

-          Negativo! Neste recinto consigo ver uma gama de detalhes tão abrangente quanto é a arte por assim dizer.

-          Peço desculpas por ter sido tão petulante com você! Não imaginava que... que..

-          Que não há restrições científicas?

-          É isto mesmo. – Disse satisfeita Eustácia, quando o professor captou seu pensamento.

-          Bem, também há fisiologia, aliás é o principal por estas bandas, por isto geralmente as pessoas têm uma visão um tanto delimitada deste tema, desta sala por assim dizer, mas o fato real é que o esporte como um todo abarca tanto moral como filosofia em seu contexto, é um acontecimento como pintar um quadro, no qual colocaremos nosso inconsciente dentro, por mais que tentemos fugir à isto, é inevitável: a maneira como praticamos um esporte demonstra o que há de verdadeiro em nós. Esta é a verdade nua e crua. Não há como fugir à isto. Inserem-se valores como sociabilização, e logo conseqüentemente respeito, confraternização, e vivências. Dá margem às idéias a partir do momento em que entramos em contato com a percepção corporal e espaço física, um tipo particular de contato com a realidade por assim dizer. Seria isto um estado alterado de consciência? Não sei. Mas é evidente que a arte como um todo se caracteriza por ser algo de grande abrangência de idéias, de elasticidade assombrosa, assim é a vida! O esporte quando submetido à visão de um fenômeno interligado com as sensações, idéias e percepções do ser humano passa a ter uma conotação intergaláctica, por assim dizer, e por isto se parece com a arte, pela abrangência de detalhes. Mas quê seria isto senão a vida?

      Neste momento Eustácia ficou boquiaberta, de tanta atenção esquecera-se dos movimentos que deveria fazer no exercício de rosca alternada, deixando inclusive um dos halteres cair ao solo, causando certo alarde por parte de uma outra aluna que fazia abdominais oblíquos logo abaixo. Uma negligência imperdoável, que causou por certo a produção de muitas serotoninas, prostraglandinas e bradicininas no organismo daquela outra. Fato surpreendente que deixou toda a horda de alunos estupefatos, com exceção do professor Marcos Paganini, que nada entende de música, mas que estando num letárgico e hipnótico devaneio descobrira finalmente o ponto nevrálgico de suas mais íntimas divagações: descobrira o quê era um carro!

13 - O fulgor de um projeto

 

DÉCIMO TERCEIRO CONTO:  O fulgor de um projeto.

 

      Lá estava ele: concatenado numa postura pensativa em sua escrivaninha, esta de madeira ornamentada, representações de folhas e feições de seres alados, animas de homens sem rostos detalhados, como se suas vidas não tivessem ainda vindo à tona. Tudo isto em madeira, eram detalhes de sua bela mesa de madeira. Sua face era bela como possa parecer a mais bela face de um senhor de idade, com longas e brancas barbas, olhar brilhante de olhos de um reluzente azul. Sim, lá estava deus. Pensativo, mas insatisfeito com algo que não sabia o que era. Sua escrivaninha era de tamanha perfeição que poder-se-ia ficar dias inteiros contemplando as beldades dos detalhes e das próprias expressões dos detalhes. Sentado numa poltrona de ouro, com os mais diversos ornamentos e formas arredondadas em prata, nestas formas encrustavam-se distribuídos de maneira harmoniosa e conjunta cristais, esmeraldas, rubis, ágatas e pérolas da mais rica magnificência e perfeição.

      Suas mãos já bastante envelhecidas pela idade, cujo número desta ninguém cogita citar, portando um lápis com a ponta bastante afiada de grafite escuro batia-o freneticamente na mesa produzindo um toc-toc quase que insuportável. Sua mente perscrutava as mais criativas idéias, mas não chegava a muitas conclusões já que estas eram bastante contraditórias por vezes. Logo apontava mais o lápis jogando cuidadosamente as cascas na lixeira, e retomava sua quase que maníaca atitude de bater o lápis à mesa. Logo, com o passar do tempo, o lápis se transformou num pequenino toco de maneira que quase não dava para segurar.

–         Não! – Pensava ele com uma imponência de causar medo a qualquer mortal. – Este será meu projeto... Sim, sim... Um projeto, já faz algum tempo que não tenho nada a fazer senão contemplar esta negra imensidão e elogiar os detalhes de minha própria mesa! De quê adianta estar só a contemplar as próprias potencialidades? – E logo respondia a si mesmo, num interminável e solitário monólogo. -  Sempre achei que estes desenhos bastante estranhos, esquisitos, originais e diferentes, mas é certo que de uma ou de outra maneira me valeriam para criar alguma idéia, e vi que as coisas são muito interessantes pois vou criar alguma coisa.

       Sim! Estava agora resoluto a criar algo, de maneira febril e vertiginosa começou a escrever, fazer esboços, contas, tabelas, gráficos e estudos nos mais variados âmbitos que imaginava, e logo seu lápis pequenino acabou, pegou um outro de um pequeno estojo de couro marrom-avermelhado, e logo se gastou por inteiro este outro lápis, mas sua frenética e explosiva perturbação não acabara, e as folhas se amontoavam de maneira desordenada ao lado direito de sua mesa, enquanto que do lado esquerdo trabalhava intensamente nas novas folhas, logo uma pilha da altura de um homem das folhas do projeto se prostrava ao lado direito da mesa. Levantou-se consternado e inebriado com sua própria loucura e com certa dificuldade pegou aquele amontoado de folhas e pôs no chão, mas não existia chão, tudo era totalmente obscura de modo que parecia que aquele senhor Deus, sua majestosa poltrona e sua mesa estivessem flutuando numa infinita escuridão, ou vácuo, nada do ausente existir poderia ser designada àquelas sombras aterradores.

           Contemplou por pouco tempo a pilhagem de realidade que projetara, mas logo sentou-se novamente imbuído por loucas idéias de criação, logo viu necessidade de utilizar réguas, compassos, calculadoras e esquadros, dizendo a si mesmo que seu projeto deveria ser metódico e perfeito, não queria erros de cálculos, por isso à cada problema aritmético enfrentado repetia-o de cinco à dez vezes para conferir. Estava tão imerso em seus afazeres que logo esqueceu-se que num tempo anterior não tinha nada a fazer senão contemplar as potencialidades de sua mesa, aliás não dispunha mais tempo para nisto pensar.

       Destituiu-se do tempo que dispunha para pensar em projetos para logo realiza-lo. Logo o imenso negrume que o circundava estava abarrotado de pilhas de folhas, cada pilha representava uma parte distinta de suas idéias. Logo após uma incomensurável quantidade de lápis utilizado, muitíssimas pilhas gastas de sua calculadora pessoal, e aproximadamente duas mil réguas gastas prostrou-se embasbacado, pois nem mesmo Deus acreditava estar em sua última folha de projeto, acabando esta parou e olhou ao redor de si espantado com a própria criação. Não se sabe quanto tempo ficou nesta posição, sentado, com o olhar à frente como se estivesse vendo o nada, entretanto via o tudo. Num movimento estranho e imparcialmente desvoluntário colocou os cotovelos à mesa e apoiou as mãos à testa segurando a cabeça com desalento, como se esta fosse desabar. Instintivamente acreditava que havia alguma coisa errada em sua criação, mas não sabia o que era. Tampouco houvera mortal corajoso para cogitar qual o tempo que Deus ficara com aquela desalentada e letárgica postura, como que triste e insatisfeito, mas é certo que levantou-se num salto incrível e assustador, afastando o pesado trono para trás pegou um por um dos montes e montes de folhas e fez muitas correções, coloriu todas as folhas com belos desenhos e utilizou as mais variadas cores de seus lápis de cores, repetindo a si mesmo em alta voz: - Sim! Sim! Faltava algo em tudo... A arte será parte de meu projeto, pois sem arte, sem arte não há vida!

12 - O dilema de Felizberto

 

DÉCIMO SEGUNDO CONTO:  O dilema de Felisberto

 

      Felisberto era um funcionário preocupadíssimo com os problemas de sua sociedade, no entanto um dos maiores problemas era o trânsito na cidade de São Paulo, se indignava totalmente com a quantidade de horas que passava dentro daquele cubículo que era seu carro, tentava sempre distrair-se com alguma música, mas depois de poucos minutos  a música parecia estar lhe estourvando a paciência, de modo que nalgumas vezes achava que seu cérebro iria estourar de tanta dor, sim, este era mais um problema que andava em seu encalço . O dia inteiro atulhado e atolado num computador recebendo ordens e mais ordens, de todos os lados, o que lhe trazia afazeres e mais afazeres, sentado o dia inteiro com os nervos sempre à flor da pele, já que seu chefe não contribuía muito nas situações do dia dia, chegava em casa já tarde da noite, tão cansado que nem energia lhe sobrava para conversar pouco mais animado com a esposa. Sobrava para ela receber um monte de reclamações pouco menor que o Monte Everest. Felisberto, um homem de 34 anos, seus cabelos denotavam já duas reentrâncias na testa, talvez produzidas por sua vida atulhada de afazeres e deveres, os olhos castanhos mas com vermelidões horrorosas, que quando unidas com a obscuridade de seus profundos entornos davam-lhe um aspecto assombrado. A comissura dos lábios dificilmente se esticavam para cima, bastante difícil era que fizesse um sorrido, e quando o fazia este surtia com um efeito bastante sínico, de modo que fosse como uma representação bastante mal feita de um esboço de sorriso, assim sempre que assim julgava melhorar a situação acabava por ficar ainda mais inconveniente.

      Este era Felisberto. Felisberto estava triste e não sabia. Aos fins de semana conseguia ludibriar a si mesmo quando jogava futebol com os amigos e tomava uma cervejinha. Era a pelada que salvava a sua vida, era ela que trazia, ao menos por alguns momentos, o vigor da vida a alegria, felicidade, prazer e êxtase da vida. Sentia-se muito melhor naqueles momentos que durante os outros momentos da vida. Entretanto pelo acaso do destino ou da mais pura sorte um dia Felisberto num churrasco falou à um de seus amigos de maneira espontânea e casual, ainda com aquele sorriso cínico e com umas olheiras gigantesca que faziam com que parecesse um monstro aterrador:

-             Sabe Arnaldo... Estava pensando ultimamente que estar aqui tomando esta serveja, e jogando esta pelada maravilhosa é uma coisa fora do comum, algo que sinto um prazer indescritível. Pode este prazer ser chamado de vida?

      Arnaldo era um homem bastante íntegro, e notando que o colega se encontrava num grande dilema tentou ajudar-lhe com algumas proposições:

-             Você está dizendo então que somente prazer nestes momentos?

-             Sim exatamente... Minha vida está um verdadeiro bagaço, as relações com minha esposa não andam nada bem,  e o serviço cada vez mais puxado não me dá margem à um descanso...

-             Sim, entendo, mas veja bem meu amigo: Seria a essência da vida o prazer? Futebol e cerveja são grandes prazeres dos Brasileiros, assim como o samba e as mulatas, mas veja bem que o sofrimento também faz parte integral da vida. É preciso sofrer para viver. – Com esta afirmação deu três goles em sua cerveja e continuou com alacridade. -  Sim, eu diria que o sofrimento é a base da vida, pois o sofromento é um dilema pelo qual passamos, e o dilema é um problema que incita a mudança, a mudança é movimento, logo a essência da vida é o movimento, portanto meu caro Felisberto o sofrimento é movimento.

-             É, acho que entendi. – Disse com simplicidade Felisberto enquanto picava uma calabresa com cebola.  – Então quer dizer que todos os dias que sofro durante a semana são mais importantes que os dias que tenho prazer jogando futebol e tomando minha bela cerveja?

-             Isso! – Gritou o amigo, empolgado com o fato de que seu amigo havia captado por inteiro sua idéia. – É magnífica sua capacidade de entendimento. Ainda digo mais: Os momentos que passamos por prazeres como este são um entorpecimento que faz com que fujamos do sofrimento.

-             O quê? – Berrou Felisberto de maneira escandalosa, sem se conter, inclusive este foi o momento em que caiu da cadeira, aquelas cadeiras de bar, sempre eram perigosas para cair dizia ele depois deste dia. – Você quer então dizer que deve-se somente sofrer, sem ter ao menos os poucos momentos de devaneio e prazer?

-             Não, absolutamente, isto não. O fato é que a importância em si não está no sofrer mas sim no mudar, e o que causa mudança nos seres humanos é o sofrimento, aquele que muito sofre devido à mesma causa é porque não mudou, mudar exige uma atitude, uma força, uma vontade.

-             Acho então que vou mudar, mas não sei como...

-             Faça como eu! – Exclamou vivazmente Arnaldo. – Além de jogar futebol  e tomar a cerveja aos fins de semana aos dias de semana eu sempre encontro tempo para dar uma escapadinha no horário do almoço e correr um pouco lá no parque, é para min um momento d indescritível paz, depois que comecei dei outro sentido para vida em geral. Tudo parece mudar, estou bem mais magro, mas ainda tenho que emagrescer pouco mais, minhas idéias concatenam com maior precisão e não estou tão lerdo como era antes para subir escadas. Meu vigor sexual melhorou bastante, inclusive é extraordinariamente eficaz neste sentido a corrida.

-             Mas você não cansa de correr todos os dias?

-             Não, não... Veja bem Felisberto: o treinamento de corrida é super variado, têm os intervalados, ritmo, morro, fartleck, longão e por aí vai. E nosso organismo vai se adaptando gradualmente ao esforço, de modo que com a super-compensação nós ficamos melhor preparados para um novo treino, ao contrário de cansar a gente renova as energias.

-             Agora acho que entendi. – Falou o outro resignado com as explicações.

-             Como sabe tenho uma belíssima coleção de medalhas lá em casa, o que me dá uma grande moral com o pessoal do serviço, eles nem sequer acreditam que consegui completar uma maratona este ano, uma prova impressionante de seus impossíveis 42 quilômetros, fiquei muito emocionado quando cheguei... – Fez um gesto cômico com a mão, jogando-a com vigor para o ombro do amigo, algo que lhe era bastante peculiar. – É, isto na verdade é o que todo dizem, e que no quilômetro 30 têm o paredão.

-             Você correu 42 quilômetros? Está brincando comigo?

-             Não, não. É verdade, corri sim. E ainda consegui cumprir com minha meta, que era fazer a prova para um tempo de 3 horas e 50 minutos, foi fantástico quando cheguei... Ver a torcida batendo palmas... E toda aquela gente correndo para a chegada... Todos por certo bastante emocionados. Foi muito legal, nem consigo descrever direito, sabe? É algo que mexe com a gente.

-             Acho que eu nunca conseguiria. – Falou com desalento Felisberto.

-             Quê nada, todo mundo diz que é impossível, é difícil mais não impossível. Tudo se resolve com treino e dedicação. Quando nos dedicamos à alguma coisa específica mudamos nossas vidas, pois a cada dia cumprimos uma pequena meta, para um dia chegar na meta maior que é a maratona.

-             É? Acho que este é meu problema... Ando meio sem metas na minha vida... É só trabalhar e trabalhar, ganhar o sustento da família e depois trabalhar mais, se eu não dedicar um mínimo tempo em alguma meta um pouco mais elevada que isto acho que vou morrer de desgosto.

-             Este é em geral... – Disse  Arnaldo dando uns tapas amistosos nas costas do colega. – É em geral o maior problema dos seres humanos, que passam pela vida sem viver, ou melhor: passam pela vida sem correr, porque correr é viver.

-             Isto parece  uma paródia, mas vou confiar em você, pois na situação em que me encontro não tenho nada a perder, vou experimentar correr.

      Uma semana depois de ter proferido esta frase Felisberto começou suas primeiras corridas, eram três vezes por semana, um esforço tremendo que com o passar dos tempos passou à exigir pouco menos, de modo que começou a descobrir o prazer de correr. Sim! O mundo era belo! A natureza era exuberante, os perfumes agradáveis, a terra era fofa, a chuva era refrescante, os ventos eram revigorantes, as plantas eram exóticas, e as pessoas... as pessoas... as pessoas eram humanas! Sim era isto que ele havia descoberto. Tudo estava dentro de uma simplicidade e singeleza tão grande que Felisberto não sabia como não pudera descobrir tudo isto antes.

      Então finalmente chegou, depois de três anos de graduais objetivos atingidos, como provas de 6, 10, 15 e 21 quilômetros, todas as metas logradas com muita alegria, sentia que sua vida estava mais viva, sorria mais, estava sempre mais disposto, as coisas lhe pareciam mais belas, era uma pessoa mais positiva, mais otimista. Chegou ao dia da maratona, finalmente iria fazer aquela prova de que tanto lhe falavam os corredores seus colegas de treino. A temida prova de seus 42 quilômetros e 195 metros, finalmente disse ele enquanto uma ansiedade lhe inundava a alma antes da largada. Então correu. Correu bastante, correu muito e continuou correndo até que viu depois de muito tempo a linha de chegada, seus pés doíam, suas pernas não respondiam com exatidão, mas sua alma vibrava com tanta intensidade que não pode conter muitas lágrimas, que esbaldavam de seu rosto, se sentiu como nunca havia se sentido em sua vida pois um sentido de paz lhe preencheu de tal forma que tudo em sua vida pareceu fazer sentido. Finalmente ao chegar  teve o descanso merecido daqueles poucos que são verdadeiros heróis, heróis não só da corrida como também da vida!

11 - A essência do caos

 

DÉCIMO PRIMEIROCONTO – A essência do caos

 

      Dentro de uma pequenina caixa vivia um ser bastante curioso, seus olhos eram azuis, mas seu corpo era verde, bastante curioso pois tinha o tamanho de uma bola de sinuca. Não se sabe como surgiu, mas o certo é que num dia qualquer saiu da caixa, e por ter uma aparência monstruosa assustou-se. Aparência montruosa não era a dele, mas do mundo que viu ao sair, pois numa larga avenida muitos carros e caminhões buzinavam e soltavam uma fumaceira desagradabilíssima. Começou a andar, e sendo do tamanho que era logo quase foi atropelado, queria sair daquela escura caixa e conhecer o mundo.

       Mas tudo pareceu à ele medonho e perigoso, não sabia como proceder em diversas ocasiões, a maioria das pessoas não notava sua presença, os que notavam logo davam um berro ou saiam correndo, pois era uma mistura de lagarto com gente. Numa destas ocasiões perambulava ao léu numa praça do bairro e um garoto que ingenuamente brincava de amarelinha, e, não encontrando pedra para jogar o pegou, jogando-o numa das casas. Mas logo o menino que se chamava Franshauliwisk ficou abismado com o fato de sua pedra andar. Era um menino míope e não pode notar a feiúra daquela pedra, logo pegou a pedra extasiado e saiu correndo pelas ruas da cidade encontrando na metade do caminho de sua casa com o professor de química Wander.

      Wander era um senhor de idade avançada, com uma barba muito espessa, seu cabelo teimava em estar sempre em total desalinho, o que ele já não dava mais importância, os olhos afundados na face detrás de uns óculos redondos e de uma magreza cadavérica. Andava sempre com milhares de preocupações na cabeça, pastas e livros nas mãos ossudas e um olhar percrustador.

      Franshauliwisk atravessando muitas ruas corria desesperadamente, enquanto o homem lagarto em miniatura sofria esmagado em suas mãos com o rosto já vermelho de tanta falta de ar. Até que topou com Wander deixado seu achado cair à alguns metros à frente.

-             Quê? – Perguntou o professor sem se dar conta do que estava acontecendo.

-             Professor, eu, eu encontrei uma pedra. – Falou o menino com bastante afobação.

-             Não quero saber de pedras Franshau! – Resmungou o professor já continuando sua marcha frenética, deixando o garoto para trás, acontece que foi em direção do achado, quase esmagando-o se não fosse pela intervenção de Franshauliwisk com um berro ensurdecedor.

-             Por quê gritas assim? Estás louco ou o quê?

-             Professor Wander, o senhor vai liquidar minha pedra andante?

-             Pedra andante?

-             Sim, é esta aqui. – Proferiu orgulhosamente enquanto apontava seu achado, e este por sua vez enxergando muito bem limpou por duas vezes seus óculos para ver se estava realmente vendo o que via e ao notar que não estava alucinando assustou-se.

-             Mas que monstrinho é este?

-             É uma pedra andante! Eu a achei no parque.

-             Há tempos recomendei a seus pais te porem uns óculos de grau... Não vês que é um pequeno... Pequeno... Como podemos definir isto? – Pegou o que chamara por monstrinho e pôs bem perto de seu rosto no intuito de contemplar mais detalhadamente. E prosseguiu. – Quem ou o quê é você?

-             Venho da caixa. – Respondeu concisamente com uma voz bastante aguda o lagarto. – Venho das obscuras sendas do papelão e sou o ser mais horrorizado de que se pode ter noticia... este mundo é terrível.

-             Você ainda não viu nada. E nem queira ver... – Respondeu o garoto num tom ingenuamente burlesco e ao mesmo tempo desalentado.

      Momentos depois os dois levaram o coitado e perdido para a casa do professor donde nos fundos havia um laboratório de improviso, cheio de papéis, frascos com líquidos de todas as cores e tamanhos e algumas gaiolas com ratos de cobaia. De fato o que aquela estranha criatura vira do mundo não representava sua verdadeira essência. Qual seria a essência do mundo? Estes eram os pensamentos de Wander enquanto ouviu a pergunta do desconhecido achado e a resposta descompromissada de seu aluno. Talvez este estranho animalzinho não tenha conhecido o mundo em sua verdadeira essência, pois é certo que nosso planeta  tem seus aspectos bons e maus, tudo dependerá tão somente do modo como estamos interpretando as coisas que vemos ao nosso redor, é possível que seja um extra-terrestre, será ele um ser bom ou mau? Sua aparência é bastante feia! Esta pele esverdeada... poderíamos dizer que se parece um pequeno monstro. Mas ele próprio parece ter ficado assustado conosco. Será que estou precisando fazer a barba? Não, não creio que seja isto, pois as aparências não querem dizer nada, são tão insignificantes quanto a interpretação que fazemos das coisas, o mais importante são as coisas por elas mesmos, ou seja: as essências. É evidente que não podemos conhecer as essências se não interpretarmos elas através de nossos sentidos e experiências para formar uma opinião sólida à respeito delas. Logo nada do que conhecemos é tão real quanto a essência verdadeira destas coisas. Sim, chego à conclusão de que mesmo que o interprete como feio e terrificante este ser pode ele ter uma essência completamente diferente, estaria eu através de meus conceitos formando uma realidade distinta da própria realidade. O próprio lagarto julgou nosso mundo como horrível, talvez tenha sido precipitado em suas conclusões, mas vejo sim que a verdade é que não existe um ser na galáxia toda, incluindo qualquer tipo de lagarto transmorfo que tenha uma concepção igual da realidade, já que tudo depende exclusivamente da interpretação. E ainda por cima estas interpretações nunca podem ser perfeitas, logo nunca conheceremos a essência da realidade! É isto! As abelhas, as plantas, os peixes, os moluscos, macacos, feras, lagartos, elefantes homens e formigas têm diferentes contatos com a realidade e interpretam de maneira diferente o que vivem, as mesmas coisas são vistas de diferentes modos logo não existe um mundo mas infinitos mundos. A pluralidade destas interpretações nos levaria ao caos... Como conseguimos viver em sociedade?...

      Enquanto o professor fazia no caminho de sua casa sérias reflexões filosóficas, o menino conforme havia insistido levava cuidadosamente o supremo extra-terrestre, assim passaram a chamar até chegarem aos fundos de sua casa onde estava um laboratório relativamente bagunçado. Ao chegar o professor jogou suas pastas e livros num velho sofá listrado de verde, já bastante judiado que se posicionava ao lado da porta, onde no chão um grande tapete amarelo se colocava com os seguintes dizeres: Que a química perpasse teus neurônios!

      Ali colocaram delicadamente o animalzinho numa mesa cheia de frascos, recipientes e livros de químicas.

-             De onde vens? – Perguntou Wander com curiosidade científica.

-             Quem ou o quê é você? – Perguntou Mambu, pois assim era seu nome.

-             Eu? Sou um professor de química.

-             Não meu senhor. – Respondeu ironicamente Mambu que conhecia muito da vida e da essência das coisas. – O senhor não é um professor de química mas sim Wander: um ser humano dotado de infindáveis capacidades, sentimentos e dotes, e pode utiliza-los ou não conforme seu desenvolvimento geral na vida. Não deves o senhor se ater às insignificantes designações e concepções de parcelas pequeninas da vida, deves sim saber que um profesor de química não é ser, mas sim ter, pois vossa senhoria detém o conhecimento sulficiente para ministrar aulas desta matéria. Farei agora outra pergunta: O senhor respeitabilíssimo é o que faz?

-             Nunca parei para pensar nisto... – Balbuciou Wander impressionado com o nível de dicernimento daquela criatura que até então julgara ser um extra-terrestre ignorante, tão somente pela análise que fizera de sua aparência, enquanto isto o menino sem sentender patavinas daquela conversa se atinha à olhar Mambu com uma grande lupa que encontrara por qualquer lugar do laboratório.

-             Responda! – Falou imperiosamente o transmorfo, como um rei.

-             Se sou o que faço? Agora que você me disse isto consigo pensar de maneira translúcida que na verdade não sou o que faço, portanto não posso ser um professor, mas sou sim um objeto externo à tudo que possa fazer. Sim vejo muito bem que não sou professor mas uma essência mais profunda que possui a ínfima capacidade de ensinar química!

-             Meu nome é Mambu, sou um ser que poucos sabem de onde vim, não posso dizer de onde exatamente, mas sim de uma grande escuridão. Àqueles que querem saber talvez poderão algo descobrir, mas nunca de fato saberão a exata realidade de minhas origens, pois já que ninguém têm o mesmo conceito de realidade ela mesmo não existe, o que existe é uma distorcida noção das coisas... Veja vossa reverência que tampouco sabe quem és, se não sabes quem és como saberá então o quê é o mundo?

-             É evidente que se não sei quem sou não poderei saber o quê é o mundo. É como dizer que uma árvore que não sabe que têm folhas não poderá fazer fotossíntese, e logo não poderá saber que existe o sol, ou terá uma noção muito distorcida do sol. Ou um operador que não sabendo mexer numa máquina nunca saberá onde poderá chegar com esta máquina. Ou um homem que não sabendo dirigir carro nunca saberá existirem outros países no mundo.

-             Exatamente isto meu amigo, vejo que entendeste algo das essências das idéias. – Disse consignado mambu colocando suas pequeninas mãos no queixo com um ar de sábio sentando-se num livro de química avançada. Sendo que cuidadosamente antes de sentar-se tirou com um pano, que não se sabe se tirou de um bolso oculto ou encontrou ao acaso, o pó depositado no livro. – Finalmente chegamos à algum lugar, mas como disse à você, este mundo me assusta, primeiro este menino achando que sou uma pedra me atira longe... Depois me espreme como limão...

-             Veja Mambu que é míope, e já insisti no fato de que já passou da hora de adquirir um óculos de grau...

-             É sobre isto que estamos falando: a visão que ele têm da realidade é diferente, distinta e única.

-             Não estás falando em tom de burla?

-             Não, não! Isto se aplica desde às situações mais simples às mais abstratas e filosóficas...

-             Claro. – Resignou-se o cientista, como se de nada tivesse duvidado.

-             E veja você, meu caro, que ainda por um momento, após muitos anos tive a audácia de sair das brumas obscuras de minha caixa, que eram para min bastante agradáveis, e quando tive o contato com o que considerei como realidade me abismei: aqueles caminhões e carros poluindo, pessoas querendo pisar em mim, muitos gritando quando me viam, outros saiam correndo. Tive muito medo, e por momentos quis voltar correndo à minha caixa.

-             É verdade, é muito duro enfrentar a realidade, principalmente quando se descobre que ela é muito mais ampla do que se supunha... – Contextualisou o cientista.

-             Tentei enfrenta-la de cara, de modo que este menino me encontrou.

-             Mas ele não via a realidade exata, e por isto não saiu correndo.

-             O senhor está supondo que é melhor se manter distante da realidade para se viver melhor?

-             De certa forma... – Confirmou Wander

-             Sim, devo concordar com vossa excelentíssima reverência que é muito mais cômodo desconhecermos à nós e ao mundo para viver mais facilmente: sem mudanças, sem adaptações, sem arriscar, sem perigo, sem diversidade e finalmente: Sem dilema, pois dilema significa a essência da descoberta da essência.

-             Dilema? – Perguntou o cientista interessadamente com os olhos arregalados, já servindo um frasco bem pequenino de água para o lagarto tomar.

-             Sim dilema! Dilma é essência, é vida! Sem ele não há mudança... Mas que coisa deliciosa! Quê é isto?

-             Água. – Respondeu Franshauliwisk  interferindo na conversa da qual pouca coisa entendia enquanto olhava com graciosidade Mambu tomar água.

-             Água! É de um frescor inigualável... Veja você que se eu não me arriscasse a toma-la jamais sentiria o prazer e preenchimento que ela proporciona, mas é certo que por momentos passei pelo dilema de tomar ou não algo desconhecido, conhecer o desconhecido proporciona um dilema pois traz à tona uma nova realidade.

-             Isto quer dizer que além de cada um ter uma interpretação das essências diferentes e por isto viverem realidades diferentes estas realidades estão em constante mudança?

-             Exato! A menos que sejam comodistas e faltem-lhes a vontade de saber quem são, neste caso a realidade se mantêm constante, ou melhor: ficam muito mais distantes do real que se estivessem no porssesso de mudança... Sair da caixa, e de muitas outras caixas que nos embrulham...

-             Isto não traz o caos? – Perguntou o menino de maneira criativa, mas ainda assim fazendo interessante colocação, logo o lagarto olhou para ele e colocou o frasquinho que lhe servia de copo no livro.

-             Sim: tudo é caos e tudo é essência! – Falou impetuosamente o lagarto.

      Todos então, após esta frase consisa e avassaladora ficaram prostrados um diante do outro num silêncio mortal, era um silêncio vivaz e esclarecedor, de repente o lagarto começou a desaparecer, estava se desintegrando, muito brilho cor de ouro lhe preencheu, de modo que aquilo se afigurava como uma espécie de passe de mágica. O professor, sem saber o que falar olhou ao aluno, e o aluno olhou ao professor como se quizesse uma explicação, de súbito o mesmo aconteceu aos dois que começaram a desaparecer com aquele estranho brilho cor de ouro, logo o laboratório de química ficou completamente vazio, a lupa pareceu cair em câmera lenta ao piso de mármore fazendo um ruído impreciso.

       Algum tempo depois no mesmo processo desapareceram os livros, os cadernos, frascos, líquidos, as mesas, o sofá esverdeado, as paredes o teto e o próprio chão do lugar, de modo que donde era um laboratório ficou um intenso negrume. Coisa bastante estranha. Rapidamente aquele brilho maravilhosamente lindo perpassou por toda a casa, a vizinhança, as ruas, prédios, praças, monumentos, estádios, museus, teatros, e a cidade desapareceu numa escuridão total, e, antes que os jornais pudesem disto fazer alguma noticia o mundo desapareceu juntamente com o universo, e tudo ficou totalmente escuro de modo que o tudo parecia o nada.

      Até que então alguém resolveu, depois de muito tempo de escuridão dar um passo, depois deste passo mais outro, até se seguir uma cadência de passos que formou uma caminhada, que foi depois de alguns minutos impedida por alguma coisa... Era uma parede de papelão, que foi com audácia rasgada, e vejam só que o mesmo lagarto saiu na mesma cidade, mas seus olhos estavam diferente, parece que naquele momento ele via a si mesmo e ao mundo de modo distinto.

10 - A metamorfose de Draj

 

DÉCIMO CONTO: A metamorfose de Draj.

 

       Ocorreu que num vilarejo, numa remota antigüidade um homem de caráter muito sério vivia transtornado com sua vida, sua sina era transformar-se numa personalidade importante da comunidade, porém nada tinha senão uma tenda de artesanato, com a qual ganhava seu pão. Porém certo dia foi inusitadamente surpreso com a presença de um ser muito estranho. Fábio, o artesão não suportava desleixes em seu trabalho, seus discípulos sempre que cometessem erros inoportunos eram severamente castigados, porém Fábio os recompensava dignamente com presentes e boas quantias de apreciáveis moedas quando trabalhavam corretamente.

       Num dos dias em que castigava um dos discípulos com fortes açoitadas de chicote, por este apenas haver derrubado um vaso sem a intenção, Fábio se deparou com uma assombrosa aparição. O discípulo, que era um garoto de seus 11 anos de idade nada viu, acreditando que seu mestre estava louco enquanto falava sozinho. Fábio via um monstro de três chifres, horrível com um bafo aterrador e fétido como esgoto. Sua aparência era bastante medonha, já que tinha dentes afiadíssimos e olhos verdes vivos, enquanto que a cor de sua pele era algo entre vinho e marrom.

-          Quê fazeis com o menino criatura?

-          De quê se trata você horrenda criatura? – Balbuciou Fábio.

-          Sou aquele que julga a todos e a tudo, meu nome é Draj. Estou aqui não para atormentar-te como faz você com esta outra criatura, mas para avisar-te de que os exageros não são bons, nem para o lado bom tampouco para os feitos infernais.

-          O que quer de min?

-          Não vês que é este um aviso? Se não me teme a figura ensinar-te-ei que isto que fazes não é correto perante as leis.

-          E o quê é correto?

-          Apenas a moderação.

-          Não vos acredito.

       Dizendo isto Fábio prosseguiu com as chibatadas no garoto, este gritava a cada chicotada, porém no mesmo momento o artesão foi surpreendido por um golpe de Draj, que deixou uma grande ferida em um de seus braços, se até este momento ele não se importara com o que dissera Draj agora se dava conta de que era um castigo por sua imprudente atitude. O garoto que até aquele momento, a pesar da situação, acreditava que seu maldoso mestre estava como louco conversando com a parede não entendeu o motivo que jogara violentamente Fábio contra o chão, e notou a grande abertura de uma ferida em seu braço, assustando-se com este fato inexplicável.

      Pelo vilarejo foi espalhada a lenda de que um grande demônio rondava as cercanias, todos consequentemente ficaram muito assustados, e diziam que o demônio castigava à todos aqueles que praticavam o mal, pois eram estes justamente as principais vítimas do monstro, a que se chamava de Draj.

      Num convento porém, enquanto uma freira rezava com fervor recebeu ela uma outra aparição, que em sua forma distanciava-se muito à imagem de um anjo. Naquela ocasião ela estava prostrada diante de um altar, com a imagem de Jesus Cristo sendo crucificado diante dela. Foi uma aparição muito estranha, por suposto. Esta freira era estudante de processos mentais, e por muitos momentos ela chegou a cogitar que tudo aquilo se trata-se de alucinações, mas não era como constatou posteriormente. Por detrás do altar surgiu uma figura bastante curiosa, que tinha o corpo de uma grande cobra, mas a cabeça era certamente de uma pessoa bastante afável. Seria uma imagem irreal pensou, mas era tão real quanto era sua própria vida. Neste momento a gigantesca e viscosa cobra com cabeça de um senhor caridoso e bondoso descobrindo seus pensamentos disse da seguinte maneira, com palavras hipnotizantes:

-          Crês que tua vida é verdadeira?

-          Claro... Mas tu es um sonho, não me venhas invadir a realidade.

-          Não acha que a realidade é suscetível à interpretação?

-          Bem, - Disse a freira, já mais tranqüila pela afável face da cobra que cada vez mais a envolvia.

-          Tu eis ilusão, fruto de minhas fantasias e pensamentos, não sei como ousas invadir a realidade de meu mundo.

-          Crês então que teus pensamentos não são a realidade de teu mundo?

-          Claro que são! Porém estes são livres como são as águas do mar, não como o mundo que possui leis e regras findáveis.

-          É a realidade limitada? – Perguntou a cobra com ironia.

-          Não sei... estais me confundindo, pare de fazer isto cobra malvada...

-          Não sejais tão tola amiga, pois teus pensamentos são a tua realidade, o mundo em que viveis é a ferramenta que utilizareis para produzir a tua realidade. Assim digo-vos que o mundo nada significa como realidade propriamente dita, se sou eu a tua imaginação, me vejas como real e não como irreal. Quê são os sonhos senão a realidade primordial das pessoas.

-          Tua face é tão linda, quem és tu?

-          Tua própria consciência, e venho dizer-te que já chega o momento de enfrentares a ti mesmo.

-          Não me digas tais asneiras cobra.

-          Como quiserdes será.

-          Quê dizes de consciência.

-          A realidade.

-          Não te entendo.

-          O que se trata por realidade é a consciência.

-          És minha imagem mental?

-          Isso mesmo cara amiga – Disse a cobra olhando nos olhos da freira, e envolvendo-a com seu comprido corpo. – Estamos uma com a outra relacionadas, e se quer saber de uma coisa dir-te-ei o fato mais intrigante do qual jamais pudera Ter idéia, que é justamente o de que eu posso ser mais real que você, pois veja minha querida amiga, que você se preocupa muito com o mundo exterior em que vive, e eu do contrario sou uma criatura bastante importante, talvez muito mais importante que ti, já que a única realidade que existe no mundo está baseada no mundo mental, o resto consta apenas de impressões físicas, tão banais quanto a obscuridade de uma caverna.

-          Penso que buscas me confundir, mas agora vejo que há grande razão no que me dizeis, mas fico com tamanha tristeza ao pensar que vivo uma mentira e falsidade, que mesmo a pesar de saber deste fato não vou seguir tuas palavras.

-          Preferes então seguir uma mentira já sabida que se rebaixar e juntar-se à min.

-          Sim, mesmo sabendo que minha vida trata-se de ilusão do mundo físico.

-          Me tens medo?

-          Claro que não.

-          Então dês um passo à frente.

-          Não quero me envolver.

-          Já estais moralmente envolvida.

-          Disto já sei pois tiraste de min uma possível realidade em que vivia.

-          Vamos, somente um passo e estareis junto comigo.

       Assim a freira decidiu dar um passo à frente, neste momento juntou-se com sua própria consciência, a cobra se enrolou nela, sentindo no início muita repugnância a freira pensou por momentos em se desvencilhar, mas tardiamente nela surgiu uma força de vontade oculta, no final da suposta cerimônia ela se viu quase que esmagada pela cobra, porém nela surgiram sentimentos e idéias que nunca houvera tido, e um nome surgiu em sua mente, este nome era Draj. A cobra sumiu para nunca mais aparecer em sua vida, porém ela parecia conversar mentalmente com um ser que não sabia explicar como aparecia. Não sabia se era telepatia. O fato é que a partir deste momento naquela comunidade Draj foi considerado como um ser de duas faces, todos acreditavam piamente nas lendas que foram rapidamente propagadas. Draj era a figura de um demônio que assolava com crueldade as pessoas perversas, e ao mesmo tempo congratulava-se em trocar idéias sobre a vida e a realidade desta com as pessoas bondosas de coração, e, nestes momentos se mostrava na forma de uma bondosa e mansa cobra que aos poucos se aproximava, e no final pedia para que fosse dado um passo a frente, se fosse executado o pedido ela envolvia a pessoa, que após momentos desmaiava, e acordava sem quaisquer vestígios, caso contrário, no caso de que a pessoa não quisesse dar o passo à frente Draj transformava-se no demônio horrendo de três chifres e dizia que a pessoa não vivia conforme as leis que foram propostas segundo o eterno parlamento sumindo em seguida deixando fétida fumaça no local.

      As lendas eram propagadas com grande velocidade, e às vezes distorcidas de modo que haviam histórias totalmente diferentes às reais, e muitas outras vezes os mais cultos e sábios desacreditavam dos fatos contados, e achavam que a população era de tamanha ignorância que acreditava em tudo o que fosse inventado por qualquer espertalhão.

      Nesta época fora proposto pelo conselheiro do grande rei que a plebe pagasse devidamente  impostos adicionais, que na verdade eram totalmente inviáveis por suas condições, o conselheiro tinha por trás disto tudo projetos nada corretos, pois planejava ganhar muito dinheiro. O rei, não sabia da real situação de sua comunidade, e fora com isso completamente enganado por seu súdito mais fiel. Tendo ocorrido isto a comunidade revoltou-se contra o rei, maldizendo-o pela fome que passavam, e foi neste momento em que o rei, enquanto jogava xadrez com o conselheiro fora surpreendido com a visão de Draj em forma de demônio, enquanto que seu conselheiro nada conseguia visualizar, acreditando que o rei estava em um verdadeiro acesso de insanidade mental.

-          Quê fazeis com a população meu rei? – Grunhiu Draj com tom ameaçador, sua figura era do tamanho de dois cavalos.

      O rei de um grande susto deu um salto quando apareceu-lhe aquela figura demoníaca diante de si, com tantos dentes, vermelha escura misturada com cor de barro. Com olhos verdes e um rosto todo creio de verrugas e fissuras estrondosamente horríveis, derrubou o tabuleiro de xadrez e caiu aturdido para trás.

-          Quê passa contigo meu rei? – Perguntou em disfarçado tom de preocupação o conselheiro.

      Levantando-se com dificuldade tornou a ver a horrível figura.

-          Vamos criatura! Levanta-te para me responder o que pergunto.

-          A quê se refere? – Disse o rei lembrando-se da lenda, a qual nunca acreditara.

-          Ao que chamais de impostos.

-          Está tudo dentro da normalidade em relação aos impostos espírito maligno.

-          Como ousas mentir à Draj?

-          Não quero lubridiar-te, apenas digo-vos o que é a mais pura verdade – Disse o rei numa frustrada tentativa de amenizar-lhe a ira.

      Draj furiosamente atacou o rei como um touro, e este foi jogado com sobre-humana força à parede posterior daquele aposento, com graves ferimentos no abdômen e peito o rei foi no exato momento arrastado até o mago do castelo, que não constatou sua morte, tentando com desespero através de suas poções curar os ferimentos e uma forte febre. O conselheiro não conseguira explicar o que ocorrera, já que estava muito aturdido com a ocorrência, somente ficava lembrando-se de forma repetitiva das palavras do rei de impostos e espírito maligno, o que o deixava quase tão louco quanto ficara o rei. Haveria ele descoberto seus planos de enriquecimento ilícito?

      O rei, em sua febre proferia constantemente em sua febre palavras ininteligíveis entre outras que se distinguia claramente o que se referia aos impostos, parecia querer se desculpar e explicar algo a um ser invisível. Após estes fatos, Draj descobrindo que o verdadeiro culpado dos impostos era o conselheiro e não o rei o matou justamente segundo as leis do eterno tribunal, perdoando o rei por haver sido enganado por palavras de um falso homem.

      Fato extraordinário foram estas aparições e mortes misteriosas para os descrentes daquela nova religião que surgira naqueles tempos, que foi chamada a posteriori de “A metamorfose de Draj”, o ser dual. Fora uma religião surgida de fatos reais diziam todos, e que viera para salvar à todos. Aos poucos os fenômenos foram desaparecendo da comunidade e com isso, através da cultura, foi sendo distorcida a realidade dos feitos de Draj, sendo a religião após tempos e tempos subdividida em muitas outras, já que era interpretada de diversas maneiras. Draj sempre discordou destas criações culturais, as quais ignora, pois segundo ele não tratam-se da realidade propriamente dita. Mas o que entendemos por realidade propriamente dita?

34 - Pássaros de luz

  trigésimo quarto - Pássaro de luz Vida vida corre vida, corre para lá corre para cá e se esvai, se esvai. Engrandece cresce. O pássaro d...